18 de jul. de 2010

passagem

viagem, em essência, é algo solitário, no ermo de si
'traz barro, pedra, pó e nunca mais'
olhar, recorte, imersão – e lá se vão...
seja feliz, para sempre!

13 de jun. de 2010

sobre leitos e vazão sob águas

. .

como que hipnotizado, o garoto vê-se imantado pelo vórtice ao lado de uma balsa, atracada num igarapé amazônico: as águas escuras carregam da superfície tudo que encontram a lugares completamente inacessíveis a sua mente. banzeiros sobre frágeis canoas e o mínimo limiar de suas bordas e o nível do rio, enquanto os remos em formato de coração o perfuram. a areia aplicada junto com o verniz sobre o convés de um veleiro em Iguape, a conferir aderência aos pés molhados em meio às cavalgadas marítimas. o pulo de cabeça desde um porto à beira do São Francisco, quando o profundo medo de altura paralisa o tempo, fixa o salto num para-sempre e projetando uma janela à flor d’água barrenta do Velho Chico, a ser estilhaçada, ao fim e enfim, em horror e devaneio, feito pesadelo. o menino caiçara, morador de uma ilha oceânica no litoral paulista: brinca com sua canoa, rema das formas mais inusitadas em manobras bruscas, inesperadas, até em ré – possíveis desafios lúdicos em seu quintal aquoso; esgotados todos os recursos, acaba por emborcar a própria canoa, só para, com ele mesmo ao mar, desvirá-la, esgotar-lhe a água, e tornar a comandá-la de volta. o balouçar do amplo navio, deslizando lateralmente, dada a quilha quebrada, a tentar cruzar o Adriático. a canoa de formato canadense típico, há tanto namorada, usada para flutuar sobre o azul único de Lake Louise. a experiência de afundar o braço no Rio Negro, e ver sumir assustadoramente a mão no tom coca-cola de suas águas, antes mesmo de se chegar a molhar o cotovelo. e – mais que tudo – as imagens difusas, dada pela luz vinda da superfície e cada vez mais distante, vistas por quem vai afundando ao se afogar...

29 de mai. de 2010

25 de mai. de 2010

testículos

.  escrever é uma febre constante que queima por dentro. o suadouro é pelo por pra fora; fazê-la baixar, justamente pelo papel.

. sem sequer conhecer as paredes brancas a cal do agreste Mediterrâneo. sentir seu calor em sal, têmpera em rochas, oliveiras.

. nos lençóis revoltos enrolo meus rolos. rolo o tempo incomodado pela certeza de que o despertador, indiferente, berrará eficiente às 6h40. na ausência de paredes no ainda negror de fim de noite, arregalo os olhos pro nada, sem parâmetros de espaço, a não ser o contato vertical com o colchão. remoo esbugalhado os anseios, essa total falta de sono e saída.

. a ideia da morte ligada à de formigas. ser inumerável e sua perenidade. em soma. falta de individualidade, na vulgaridade que lhe é própria. nos corredores, terras, lixos, porões, estruturas. mas, principalmente, pela minha pia.
      na inevitável identificação. no limite inarredável do termo de cada um. morte – no só, no dentro de si, no passar e as formigas ficarem. sempre houve. e restarão pra todo o depois.

. o passo com prioridade deve ser o de acalmar. envolver, tecer o todo. o conjunto, a unidade. o centro. selva de si.
      contudo, uma relação amorosa pode centrar em definitivo. arriscado demais pra quem é agitado. desmatado, coitado...

8 de mai. de 2010

doido


o menino acorda agoniado. pesadelo dos brabos. pelas ruas de Manaus, junto com seus irmãos ainda mais curumins que ele, depara-se com Carmem Doida. doida varrida, sempre munida de um saco de juta às costas, pronta para ameaçar meter nele crianças que a aperreassem, e carregá-las embora... no saco, até onde se sabe, uma lata com restos de comida para bichos que criava.
     pavor em forma de gente. ou de pesadelo. espectro magro, com cabelos lisos e grisalhos, de franja reta rente à testa, composto ainda por gibão surrado como vestimenta. mais que louca, enlouquecedora. concretização do terror. e, tudo que restava ao menino era arrodear aquele ser, que se interpunha no caminho em direção à sua casa, e passar com seus irmãos despercebidos da figura. mas eis que um deles faz a última das coisas pensáveis. grita Carmem Doida! pronto, o pesadelo fez-se realidade. medonho, sem saída, saco a buscar menino...
     menino acordado, vê-se sozinho. ó angústia infinda. seus irmãos já tomavam o café da manhã. suado, mas sem se dar conta sequer do arder das brotoejas, em ato contínuo desce ao térreo da casa, com os pés a cruzar o frio do granito pontilhado em preto e branco. mãe na cozinha, irmãos sentados à mesa. vai direto ao maldito, dono do grito: e desce sopapos no atônito coitado. a mãe consegue separar o atacante – ainda descontrolado, em respiração e no transpirar, dado o recente escape da doida da Carmem – do completamente desentendido irmão. ela exige justificativa do filho mais velho, com o que entende o ocorrido e tenta explicar-lhe o que vinha ser um sonho...
     não se sabe o quanto, ali, o menino acabou de fato compreendendo. o símbolo fora, naquele instante, de todo real. doído. muita água rolaria pelos igarapés da fantasia, até que ele chegasse a relacionar sonho e sintoma pelo seu aspecto metafórico, ou angústia a preço a pagar para se assumir a demanda do desejo... Carmem Doida sempre foi muito doido!

25 de abr. de 2010

ah, as minhas fogueiras...

João Vitor, já promessa de ótimo fotógrafo, me assiste,
em foto de Caco Naguno, pai do João e já há muito ótimo fotógrafo.

a dormir


eu durmo, tu dormes, qualquer um dorme
mas assim linda de morrer, sensual e feito
anjo a um só tempo, apenas minha filha
ilha de impressões, jorro fluvial de afetos

31 de jan. de 2010

sonhar contigo


 presença não solicitada, tipo de convite jamais manifesto. despontas feito invasão a domicílio. pr’além da possibilidade do simbólico, simplesmente te presentificas! efetivamente pele, trejeitos, odores, cor de cabelo, conversações e trocas de olhares de intimidade sem igual. num assombro de sensações, dique rompido.
     na falta de qualquer cerimônia tua, minhas noites se veem apoderadas. arrasas aquilo a ser descanso e, em teu maneirismo doce, ainda que travado, trafegas indiferente ao que possa ser controle. desde a remota cena de um jantar a velas regado a vinho chileno, tu te impões com irrecusável realidade. revolves mesas e camas postas em vagas analogias. a ponto de afetos se arriscarem a emergir para, despertos, se verem escancaradamente prostrados.
     pelos ambientes familiares mais diversos, atuas. cruzas do sofá ao jardim, do quarto de casal à sala de jantar, te fazendo conduzir por gestual só a nós dois afeito. como que largando passo a passo teu feromônio pelos cômodos; a mim, de desejo sonâmbulo, resta apenas segui-lo, enquanto meu corpo se contorce nos lençóis. enredado nessas sensações oriundas de tua existência ali, sonho – impotente a símbolos e livres associações. pois tudo é reduzido à concretude de tato, fala, olhar em cândido observar, numa vertigem de suavidade da qual há tanto não mais se quer imaginar – porque movediça, intratável, passada. ainda assim, tal realismo desse modo trazido faz imperar tudo o desenterrado por ti, de cadáveres insepultos àqueles que já se põem a levantar.
     odeio sonhar contigo!

26 de jan. de 2010

22 de jan. de 2010

micros



saída
Saiu e pulou. Voou, voou; única saída.
Aluguel não pago, paletó poído nos cotovelos e a filha pequena (três anos) vieram à cabeça. Sua mulher não perdoaria, sabia – e ele flutuava. Tudo cessou com o estrondo no chão. Foram 17 andares.

terça, meio dia
Passam-me sapatos pretos, amarelos, de pano ou couro, alpercatas. O salto alto mais fino faz cócegas, o tamanco largo pesa. A leveza da havaiana confunde-se com a sola suja dos pés descalços do pedinte. Papéis amassados, tocos de cigarro, catarro e poeira – tudo fica grudado em mim pelo passar da multidão costumeira.
Sou a calçada de uma esquina da São João.

despacho que vi ser feito numa encruzilhada obscura, pras
bandas de santo amaro, ao término de uma sexta-feira 13
Brancos dentes de negra reluzidos por sete velas em meio a cheiro de sangue, cachaça, galinha morta, farinha.

por fora
Escancarou o guarda-roupa. Retirou e foi colocando os olhos azuis, o ondulado cabelo, o peito direito e alguns botões. Apanhou o batom no banheiro e não perdeu a festa.

que chato...
Morreu um grande amigo meu, amigo desde a infância. Rapaz sadio, de boa família, lido. Nos estimávamos bastante, apesar de já fazer bons anos que não nos víamos. Morte estúpida, como todas as mortes. Se sobrar um tempo, talvez vá ao seu enterro.

ligo!
A mãe pega a filha em beijo de língua com o namorado no meio da sala – expurgo. Os dentes límpidos: Kolynos. Falatório infindo: programa de auditório dominical. O tira careca de pirulito na boca. Desligo. Êta televisão besta!

28 de dez. de 2009

3 de nov. de 2009

pelo olhar da libélula

 
Na Terra do Sol Nascente – nome que damos pro nosso país, né? –, a libélula traz o outono. Deixa tudo quanto é árvore com as folhas queimadas de vermelho e amarelo.” As palavras de batyan, que era como minha vó gostava de ser chamada, brotavam de maneira simples e, de tão natural, quase nem precisava que alguém as estivesse escutando. Às vezes eu ficava mesmo sem saber se falava comigo ou com ela própria.
     ― Era o koyo que chegava, uma época de cores fortes na natureza, né? – completava ela.
     Batyan adorava falar “né”. Em tudo que dizia dava um jeitinho de encaixar um “né?”. Muitas de suas falas vinham cheias de significados novos para o menino de então, até de algum desentendimento. Foi preciso um tempo razoável para dar a dimensão devida a seus repentes e à sua importância em minha vida.
     ― Um poeta japonês bem antigo escreveu: Montanhas ao longe / montanhas nos olhos / da libélula. Bonito, né? – perguntava ela, sem pretender resposta.
     Em meio às recordações a que se permitia verbalizar, não raro acabava um pouco triste, e a expressão dos seus olhinhos puxados por vezes ganhava um tom sombrio. Quem sabe por pura saudade daquelas florestas do Japão com suas árvores de colorido exuberante. E continuava, como que a pensar em voz alta:
     ― A gente é que nem as folhas do outono. Alcançamos a máxima beleza, daí vamos caducando, nos preparando pra secar e depois cair ao vento. O inverno chega pra todo mundo, né? O koyo não é só pras folhas do outono, mas pro outono de gente também, né? Só que, quando se vê isso pelos enormes olhos da libélula, as estações ganham todo um outro sentido...
     Minha batyan não teve uma vida curta, como a das libélulas. Permaneceu conosco muitos e muitos outonos, a ponto de, feito um bordo japonês bem carregado em sua folhagem, ir ficando encurvadinha, e ainda menor do que sempre fora. Porém, esse tempo todo parece não ter sido suficiente, pois até hoje ela faz uma falta danada.
     ― Outono é tempo de comer batata-doce assada em volta da fogueira. É tempo de céu limpo – mas também de tufão, né? Muito perigoso... Lá a gente diz assim: ‘O coração dos homens é céu de outono’. Por isso, né? Tá limpo, mas nele também pode a qualquer hora ventar forte...
     Pouco depois de uma dessas conversas tão soltas de batyan, ela se foi. Mas só muito mais tarde fui perceber que ela havia partido no inverno, final de novembro, época justamente em que todas as folhas das árvores caem. Não o inverno daqui, e sim o inverno da terra dela. Quando, por tudo que é lugar, o chão fica forrado das folhas em vermelho e amarelo do koyo de lá, lá do outro lado do mundo.
     E hoje, absorto ao lado de uma fogueira, penso se seriam as tonalidades dessas labaredas que me trouxeram de volta o esplendor das florestas da terra de batyan. Lembrando palavras suas, que ainda em mim ecoam, acho que o relógio interno dela, apesar dos muitos outonos de Brasil, permaneceu batendo no ritmo das estações da sua querida Hokkaido. Com a mesma leveza dos vôos das libélulas em suas inaugurações outonais, que ela tanto gostava de lembrar, né?
pro João Vitor

30 de out. de 2009

24 de out. de 2009

do centro

 sala de estar. recorte, mero enquadramento. a esquadrinhar foco, um dentre tantos. possíveis ângulos, arestas por aparar, restos. postos sobre a mesa de centro, entre sombras e luz em declínio. um novo corte, contraplanos, enganos. linhas, vãos – apenas um registro. frágil traço, como a giz, delineando rendas de tuas disposições. aliança frouxa, riso de escárnio. nem precisaria: situação emoldurada na parede oposta da sala com a marca daquele quadro nunca mais ali reposto. frágeis cavalos de batalha. teu robe há muito largado no banheiro, sem a menor desilusão. peças que nos pregamos espalhadas, travestidas relações. restam as malas abertas. pra onde? diálogos de férrea desconversa. metálica liga casada entre bronze e sino à porta de entrada. sequer ainda ressoa kind of blue pela casa. por cômodos vazios, nossos silêncios divagam por tantas impressões. desvão: recônditas ausências, nem mais a se valer do corrimão e seu arrojo encarnado. nosso barro cozido, tijolos que erguemos como pano de fundo: monólogos tolos, livros soltos, nós pelos cantos. nada desatado. e ainda a cozinha em sua falta de rescaldo. mesmo assim a mesa de centro permanece impecável.


foto: Oli

27 de set. de 2009

providência



O som do arrastar dos passos é parcialmente encoberto pelo reclamar da porta, só menos velha que a dona dos passos. A peça de madeira é encostada a custo e, no silêncio do saguão lateral da igreja, ressoa apenas o quase rastejar da anciã. Coberta por negra viuvez, não ruma direto para o local de sua contemplação diária, a nave principal, de bancos cada vez menos usados. Todo fim de mês, antes da missa, passa na sacristia, onde padre Batista se prepara para a celebração. A pouca luz e a vista ruim não dificultam a tomada dos corredores, atravessados de modo impassível. Por sob a terceira arcada estanca, olhando em direção ao crucifixo escondido pelo elevado pé direito; em vão tenta distingui-lo do fundo escuro. Na certeza de que a imagem lá permanecia, gesticula a mão direita em um autômato sinal da cruz para depois prosseguir corredor deserto adentro.
....Os olhos gastos e o corpo ressentido pelas doenças acumuladas contrastam com a atividade de sua memória, mesmo que cada vez requisitando o passado mais distante, como murmúrios internos. Sem maiores razões, passa a lembrar da época em que a pequena Vila Providência não tinha nem metade do quase mundaréu de hoje, antes mesmo da estrada de ferro chegar com sua barulheira e gente esquisita, de depravadas roupagens a espalhar o vício do jogo, e na sequência, como para combatê-lo, os templos evangélicos. As minas foram sendo abertas, a cada hora em maior número. Ou terá sido o contrário? As minas é que trouxeram os trens... O fato é que era ouro que não acabava nunca. Mas, quando acabou, tudo tornou a ficar aquietado, mais que antes do tempo das minas e dos trens. Agora, com a vida quase parada, falam até que lá pras bandas da capital tem uma máquina com asas voando sozinha com gente dentro, imagine! Só falta, qualquer dia desses, essa coisa descer aqui – coisa do Demônio, isso sim. Restam, de então, algumas ruas com calçamento, os vários botequins e esses agoniados automóveis do dr. Frederico e do dr. Afonso, únicos ricos que sobraram na redondeza. A Igreja de Nossa Senhora da Seara Divina, nossa última igreja, jaz aí cada dia mais abandonada...
....E entre o puxar de um pé e outro, em meio a ressentimentos com este mundo de perdidos, foram sendo recuperadas imagens nítidas de uma quinta-feira – tinha certeza que fora numa quinta-feira – em que padre Batista chegou em lombo de mula a Providência. Não era o primeiro enviado pela Santa Igreja ao povoado, mas seria o único a aqui permanecer por mais de três meses. E lá se vão vinte e sete anos... Dele muito se tem falado, daquilo feito e do que não fez – o certo é que está bem mudado. Só pela velhice? Sabe-se lá. Não terá sido apenas a careca, sempre encoberta por velho chapéu de feltro preto, ou a barriga que ficou imensa – o mundo de cervejas ingeridas deve ter algo a ver com isso... Há muito não é feito um único arraial para levantar doações, como se não houvesse mais no que empregar os auxílios; procissão, então, deixou de existir desde a morte do último sacristão, com o que padre Batista disse não ter condições para organizar os preparativos sozinho. Todo ano fica sua promessa de que no outro, com mais ajuda e saúde, com certeza farei. O certo é que o tempo não perdoa: estão aí as goteiras, os vitrais quebrados, o cheiro de mofo e a umidade por tudo quanto é canto para comprovar.
....Esse amontoado de anos chega a embaralhar os ocorridos, e mesmo assim insiste em depositar as recordações e suas falas na cabeça das pessoas, como pó sobre os móveis. Já poucos se lembram do escândalo que varou a região e que tanto rendeu em conversas, meses e meses de conversas. Nem um ano tinha em Providência padre Batista quando todos passaram a comentar que ele, já então nosso mais antigo padre, ao final das aulas de primeira comunhão sempre se detinha um pouco mais com a filha do finado seu Mesquita. E os detalhes, dos mais variados e impróprios, variavam conforme a boa vontade de quem contasse. Falou-se que seu Mesquita faleceu de desgosto com a extensão ganha pelos boatos. Maledicência e exagero desse povo – foi mesmo a bebida que o levou. Ora vejam, vivia mais bêbado do que sóbrio. A jovem, hoje mãe de dois homens feitos, mora pra lá de Vila Dina, onde a família foi morar logo após a morte de seu Mesquita. E padre Batista, acontecido por não acontecido, velho e birrento, daqui a pouco começa a missa. Graças à ressonância das paredes antigas, sua voz, rouca pelos fortes cigarros de palha que insiste em consumir, ainda consegue ser ouvida por um número continuamente menor de crentes. Só este ano foram enterradas três Filhas de Maria, cada qual com seus quase 80 anos, todos eles passados em Providência.
....Entra na sacristia. Padre Batista, com a estola de roxo fugidio a balançar-lhe do pescoço, busca algo; o semblante e gestos nervosos não escondem a irritação (passam cinco das cinco). Ela se aproxima, beija-lhe a mão pedindo a bênção, padre. Deus lhe abençoe – e coloque na gaveta, dona Joana, na gaveta. Onde está minha Bíblia, raios? Ah, aqui está. E andando mais rápido do que a própria gota o acostumara, sai em direção ao altar, quando lhe brota uma dúvida: para que a pressa? Sequer procura responder. A gota logo o faz recuperar a freqüência do seu movimento, e o vai retardando aos poucos. Enquanto isso, a velha retira de um de seus bolsos fundos um saquinho onde traz – hoje é fim de mês – o que ainda consegue juntar daquilo ganho com os doces feitos para fora. Como de hábito, põe o conteúdo dentro da gaveta indicada e guarda o saquinho para o próximo mês, se Deus quiser. Segue no mesmo ritmo com que entrara na igreja, no mesmo sentido tomado pelo padre. A missa tinha início. Ouvia-se pelo canto das poucas fiéis:
....Que poderei retribuir ao Senhor / Por tudo o que Ele me tem dado? / É preciosa aos olhos do Senhor / A morte dos seus santos. / Meu corpo é teu, guarda-o fiel ao teu amor e que / Minh'alma também viva sempre na alegria. / Assim como era no princípio agora e sempre / E por todos os séculos dos séculos. / Amém.....De véu à cabeça, cruza o altar-mor já acompanhando, de cor e salteado, o cântico das mulheres presentes, todas de hinários nas mãos. Junta-se a elas. O reumatismo há muito a impede de se ajoelhar, mas em pé, invariavelmente na segunda fileira, ao lado do corredor principal, ela dirige o olhar para a cruz maior alumbrada por velas compridas, por detrás da figura do padre. Do conjunto, seus olhos cansados retêm mera imagem difusa, em que apenas se ressalta o ponto de luz irriquieto de cada vela.
....Próximo à porta escancarada da igreja, às costas das mulheres, um cachorro magro ressona sobre o piso frio, e não ouve padre Batista proferir a missa das cinco.