3 de nov de 2009

pelo olhar da libélula

 
Na Terra do Sol Nascente – nome que damos pro nosso país, né? –, a libélula traz o outono. Deixa tudo quanto é árvore com as folhas queimadas de vermelho e amarelo.” As palavras de batyan, que era como minha vó gostava de ser chamada, brotavam de maneira simples e, de tão natural, quase nem precisava que alguém as estivesse escutando. Às vezes eu ficava mesmo sem saber se falava comigo ou com ela própria.
     ― Era o koyo que chegava, uma época de cores fortes na natureza, né? – completava ela.
     Batyan adorava falar “né”. Em tudo que dizia dava um jeitinho de encaixar um “né?”. Muitas de suas falas vinham cheias de significados novos para o menino de então, até de algum desentendimento. Foi preciso um tempo razoável para dar a dimensão devida a seus repentes e à sua importância em minha vida.
     ― Um poeta japonês bem antigo escreveu: Montanhas ao longe / montanhas nos olhos / da libélula. Bonito, né? – perguntava ela, sem pretender resposta.
     Em meio às recordações a que se permitia verbalizar, não raro acabava um pouco triste, e a expressão dos seus olhinhos puxados por vezes ganhava um tom sombrio. Quem sabe por pura saudade daquelas florestas do Japão com suas árvores de colorido exuberante. E continuava, como que a pensar em voz alta:
     ― A gente é que nem as folhas do outono. Alcançamos a máxima beleza, daí vamos caducando, nos preparando pra secar e depois cair ao vento. O inverno chega pra todo mundo, né? O koyo não é só pras folhas do outono, mas pro outono de gente também, né? Só que, quando se vê isso pelos enormes olhos da libélula, as estações ganham todo um outro sentido...
     Minha batyan não teve uma vida curta, como a das libélulas. Permaneceu conosco muitos e muitos outonos, a ponto de, feito um bordo japonês bem carregado em sua folhagem, ir ficando encurvadinha, e ainda menor do que sempre fora. Porém, esse tempo todo parece não ter sido suficiente, pois até hoje ela faz uma falta danada.
     ― Outono é tempo de comer batata-doce assada em volta da fogueira. É tempo de céu limpo – mas também de tufão, né? Muito perigoso... Lá a gente diz assim: ‘O coração dos homens é céu de outono’. Por isso, né? Tá limpo, mas nele também pode a qualquer hora ventar forte...
     Pouco depois de uma dessas conversas tão soltas de batyan, ela se foi. Mas só muito mais tarde fui perceber que ela havia partido no inverno, final de novembro, época justamente em que todas as folhas das árvores caem. Não o inverno daqui, e sim o inverno da terra dela. Quando, por tudo que é lugar, o chão fica forrado das folhas em vermelho e amarelo do koyo de lá, lá do outro lado do mundo.
     E hoje, absorto ao lado de uma fogueira, penso se seriam as tonalidades dessas labaredas que me trouxeram de volta o esplendor das florestas da terra de batyan. Lembrando palavras suas, que ainda em mim ecoam, acho que o relógio interno dela, apesar dos muitos outonos de Brasil, permaneceu batendo no ritmo das estações da sua querida Hokkaido. Com a mesma leveza dos vôos das libélulas em suas inaugurações outonais, que ela tanto gostava de lembrar, né?
pro João Vitor