31 de jul de 2009

andes

.

lembranças


o jantar tinha sido seco, ritmado exclusivamente pelo hábito da fome. desses em que mal se acaba e já se levanta.

contemplando da varanda o oceano, por detrás da fumaça do cachimbo, recordo os dias em que velejar era tudo. fazer-se ao mar e ler luas e marés e estrelas. verniz aplicado com areia ao casco do barco, vento noroeste, por milhas e milhas a percussão das ondas. o respingar salgado.

e em nossos rostos a tensão de quem juntos, na cadência dos fluxos e refluxos marítimos, podíamos singrar o imprevisível... há quanto tempo!

resgate e rasgo e raio: ondas suplantam a memória alquebrada e espumam num só gesto, num só eco – onde o terei perdido? por que bombordo ou estibordo terá ele restado? não há mais velas, bóias, bolinas nem horizontes infindos. sequer uma mísera carta náutica a indicar quaisquer coordenadas suas.

um pequeno arroto daquilo mal digerido me traz de volta. de dentro da escuridão, ao fundo, relâmpagos delineiam por um momento o limite entre céu e a imensidão de água.

sobre a mesa, guardanapos recém-usados, restos de frutos do mar e manchas de vinho ordinário em contraste com a toalha de linho.

como incessantemente o mar nos arrecifes, a ausência dele em mim não dá sossego. esta madrugada certamente choverá.
para o Vandão

volume

b.a. 79

.
folhas raspam calçadas. o vento penteia tudo. buenos aires caminha fria ao sol de meio-dia.

outro corpo foi achado na baía do prata. mutilado. o rosto, o sexo, o ato. não ouço ninguém berrar por isso nas amplas plazas. eu mesmo vou folheando o jornal sem escutar meu berro. não tenho por onde dar. vou amassá-lo para a próxima cesta de papel. truncado, não merece ser tido. ouvido nem lido. todos os diários conseguem dizer nada com a maior variação possível de palavras. mas sempre o mesmo nada. é o hábito que me leva todo dia a arriscar. folhear os rostos de inverno. folhear as esquinas. as calçadas.

buenos aires dos militares. do silêncio. argentina abafada. pelo amassar das botas nas folhas das calçadas.

brilhe-se!

a lá do tempo

ao lado, tempo
a lá do tempo
tempo alado
.
: empalidecer a morte





enquanto a penetrava, por sobre a vista interminável do alto de seu apartamento em uma fria madrugada, sentia-me comendo a própria são paulo. ela, esguia, leve, enroscada ofegantemente à minha cintura; eu, em pé, enfim satisfazendo um querer antigo, agarrando-a como a vida àquela cidade. mulher por muito desejada e, hoje, quase absolutamente esquecida.

daí ter sido importante atravessar tantas alcovas: subverter o provincianismo do lugarejo natal. ser infiel a tudo e ao mesmo tempo poder fazer de tudo colagens. daí as descomposturas, as filhas locais tão cedo desvirginadas, seus pais exasperados – e a falta de resquício da menor saudade.
depois o escarro final nos madeirames do porto. sem desgosto de qualquer feitio, subir o rio e um dia aqui chegar. algumas daquelas filhinhas de papai hoje são semifelizes, outras, ainda que poucas, até se mudaram também de lá.


diz-se muito de épocas. passadas sempre estão. os feitos, os acertos, a própria rememoração.
não guardo sequer uma carta das que deves ter me escrito. recordo hoje, com clareza, apenas uma folha toda colorida, estrofes compridas despejadas sobre ela. mas nem um único verso lembrado. tampouco ficou qualquer foto tua presenteada. penso ter te feito, certa vez, um minúsculo conto. claro, terminou rasgado – como todos os outros ousados a um amor já morto.

olhos para sempre


glamour de época
impregna acetato:
momento a acusar
a inutilidade
do tempo


na permanência sépia
cópia da juventude
a me perpetuar
encanto – olhos
para sempre