31 de jul de 2009

a lá do tempo

ao lado, tempo
a lá do tempo
tempo alado
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: empalidecer a morte





enquanto a penetrava, por sobre a vista interminável do alto de seu apartamento em uma fria madrugada, sentia-me comendo a própria são paulo. ela, esguia, leve, enroscada ofegantemente à minha cintura; eu, em pé, enfim satisfazendo um querer antigo, agarrando-a como a vida àquela cidade. mulher por muito desejada e, hoje, quase absolutamente esquecida.

daí ter sido importante atravessar tantas alcovas: subverter o provincianismo do lugarejo natal. ser infiel a tudo e ao mesmo tempo poder fazer de tudo colagens. daí as descomposturas, as filhas locais tão cedo desvirginadas, seus pais exasperados – e a falta de resquício da menor saudade.
depois o escarro final nos madeirames do porto. sem desgosto de qualquer feitio, subir o rio e um dia aqui chegar. algumas daquelas filhinhas de papai hoje são semifelizes, outras, ainda que poucas, até se mudaram também de lá.


diz-se muito de épocas. passadas sempre estão. os feitos, os acertos, a própria rememoração.
não guardo sequer uma carta das que deves ter me escrito. recordo hoje, com clareza, apenas uma folha toda colorida, estrofes compridas despejadas sobre ela. mas nem um único verso lembrado. tampouco ficou qualquer foto tua presenteada. penso ter te feito, certa vez, um minúsculo conto. claro, terminou rasgado – como todos os outros ousados a um amor já morto.

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