27 de ago de 2011

esta cidade não é a minha.
     aquela em que fui gerado, parido e na qual vivi minha infância impregnou-me com suas águas negras e límpidas. e ainda por calor insuportável e umidade em forma de respiro. seu provincianismo pra sempre a sufocar, pior que brotoejas – jamais tê-lo na pele. nenhum talco jhonson misturado a alfazema dá conta. ventilador, por mais rente, não o alivia. e negar tal cidade também fez parte da presença dela em mim. na recusa, sua afirmação. ou, ao negá-la, confirmar – sua ausência de mim. perda a configurar.
     contudo, é nesta cidade atual que me reencontro. numa noite especialmente fria, plena de garoa, o deparar com o acelerado ritmo cultural do lugar. estar cara a cara com Herzog – o ‘diretor de anões’ em carne e osso – e seus documentários apenas emblematiza esse fluxo indescritível de paulistanidade. e tudo isso me presentifica e flui e me percorre, ainda mais efetivamente que o vento gelado a esgueirar-se sob a roupa pesada.
     pelos enquadramentos da urbe, redescobrimento de gentes – apesar de toda sua imensidão a se perder. três ou mais décadas passadas. como que pausada. e retomada sem paralelos. só aqui possível, posto esquinas de minhas circunstâncias. mesmo após anos e anos fora, é nela que uma gênese fílmica se projeta. psique a borbulhar, narrativas impensadas de outro cruzar. frio e garoa banhando a alma, profundamente feito o bordejo de um igarapé amazônico.
     nas margens, algo não concluído. a realizar-se. um aspecto de permissão, de insanidade, de encontro radical consigo. lampejo integral. um artístico por ser escrito. inscrito. borda. e um contínuo deslocar.

15 de ago de 2011

porquanto chovesse, a água a escorrer não parasse,
o tempo teimasse em não se firmar
e não houvesse perspectiva do menor perdão à existência,
todos nos deixamos levar, vagos, 
pelos desvãos da ausência dela.
 ainda à Olguinha