13 de jan de 2016

Camadas








Argentina, Bolívia e Chile, 2015

linhagem no tempo

instigado por mim, meu pai rememora sua infância. há prazer, interesse, curiosidade de quem fala e de quem ouve. mas algo de lapso fica no ar. certa necessidade minha, como de atenuar não ter participado daquela vida.
pelo menos localizo algo assim na minha escuta. feito eu pai do filho que narra uma existência – incontáveis causos, dramas, superações, insignificâncias – que eu não pude dividir com o então garoto. apartado de tais momentos, os recupero de um outro lugar, na carne de um ser ouvinte, em paradoxal avidez de recordar feitos não vividos por mim. indiferente a isso, ele reparte comigo parte do vivido. resgata, filtra, recria, diz lembrar. meu quinhão para registro. 
pai dele tenha sido, estaríamos juntos já nesta foto, com o patriarca Octaviano ao centro. seria aquele que cedo, cedo demais, se foi. e só agora, possibilitado pelo que ele vocaliza, passasse a ter ideia do que não me foi dado compartilhar.
herança generosa – numa família de homens que não falam de suas angústias e se veem ingeridos por elas. patrimônio ofertado por relato do pai outrora filho, meu filho? avô, eu, inscrito em réplicas de nome e datas?


Emília, mãe de Helio Braga da Silveira (15/mar./1929), então com dois anos, e Manzeca; 
Octaviano; e Heitor Amilcar da Silveira (17/nov./1889–17/nov./1933).
Heitor Amílcar da Silveira Neto (17/nov./1956)

19 de dez de 2015

planos: sul americanos


equilíbrio


tinham duas pedras à beira de um caminho na Argentina...

17 de dez de 2015

verão


                                              talvez vocês consigam
                                              atravessar esse verão
                                              talvez possam matar sua sede
                                              com jarras de cleriquot
                                              enxergar vultos nas montanhas
                                              saber o suficiente para falar sobre 
                                              o que falar à beira de uma piscina
                                              onde uma abelha se afoga
                                              no que resta de azul
                                              esta é a cor dos meus sonhos
                                              talvez vocês consigam 
                                              atravessar esse verão 
                                              mas poderão me perdoar
                                              pelo meu fracasso?

                                                                                                                   Julia de Souza

12 de dez de 2013

vênus de willendorf

São apenas 11,1 cm de altura. Mas o encanto dessa estatueta não tem limites. Encontrada em 1908, próximo ao Rio Danúbio, na região austríaca de Willendorf, a Vênus de Willendorf foi esculpida há uns 24 mil anos, numa rocha avermelhada, de calcário oolítico.
      A Mulher de Willendorf, como também é conhecida, não traz rosto. O couro cabeludo está recoberto por algo semelhante a tranças ou, quem sabe, pode ser que sua cabeça esteja pontuada por diversos olhos. Não foi concebida com pés. Talvez tenha servido de talismã e, assim, criada para ser transportada.
     Para alguns, sua obesidade, como ideal ancestral de abundantes mamas e ventre, traduz um status social superior em uma comunidade de caçadores e coletores. Representaria a estabilidade, o êxito e o conforto, para um grupo que viveria de forma comedida, alicerçado na Terra, despojado de confrontos e com surpreendente engenhosidade.  

   A peça autêntica está preservada no maravilhoso Museu de História Natural (Naturhistorisches Museum) de Viena. Tenho uma cópia dela na sala de minha casa. Pouco mais de 11 cm de puro charme.

7 de nov de 2013

gênesis

contraste a partir de clic inicial de Sebastião Salgado

21 de set de 2013

visita

em plena São Paulo, libélula visita varanda da Jacintha Editores.
e a jacinta se quadruplica.

16 de mar de 2013

melodia sentimental


Acorda, vem ver a lua
que dorme na noite escura
que fulge tão bela e branca
derramando doçura...

Acorda, vem olhar a lua
que brilha na noite escura
querida, és linda e meiga
sentir seu amor é sonhar

 H.Villa Lobos/Djavan

27 de jan de 2013

clone age


Qualquer semelhança com Portrait of an Artist (Pool with two Figures)
de David Hockney, 1971, não é mera coincidência...

20 de jan de 2013

tudo aceso

Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado (...)
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos
Âmbar, A. Calcanhoto

29 de nov de 2012

índigo sentir

                                   no ar fátuo, menina lançou
                                   forma ascendente de anil contido
                                   sombra luz assombro vítreo em quarto
                                   a balouçar

20 de nov de 2012

dentro dele


A circunferência está no centro,
na semente está o fruto,
Deus no mundo;
o que for inteligente
buscá-lo-á dentro dele.
Daniel von Czepko,
aliás Angelus Silesius (1605-1660)

22 de jul de 2012

meu pai

Helio Braga da Silveira, 21/jul./2012

21 de jul de 2012

frágil sensatez

o ar gelatinou-se. seu leque de cores poderia ser cortado a estilete. veio de um fundo imensurável a apresentação em voz grave e segura. moradora de rua, solicitava xerox a serem pagos com o que pudesse... duas cópias de cada página. voltaria para acertar a diferença assim que desse.
     mal-estar instaurado, restou, do atendente, uma não resposta para que aguardasse.
     cônscio de não alimentar o clímax, meu olhar era puro esquivo. suficiente para, minimamente, sinalizar consideração pela mulher? não mirar diretamente a dona da voz – que advinhava bem ao lado – traria, por si, algum grau de respeito por sua autêntica identidade? a oceânica diferença que sua afirmação estabelecia à frágil sensatez cotidiana poderia ser transposta? eu inquerindo, como a um salva-vidas no banco dos réus.
     em estado latente, reverberação de reprografia em contenções íntimas – sustentadas a duras custas. desde olhos outros: relatos efetivos, tidos, críveis, havidos ou não. afetos no âmago implantados, represados por manifestação distanciada. igualmente cônscia. lapso de tempo e de planos, sem tons, subtons nem meios. ali presentificado!
     e transborda. impossível manter ao largo a figura alinhada ao mesmo balcão e que, sem o menor artifício, naquele instante se impunha em silêncio. insistência mansa contra o pretender generalizado em evitá-la
     ela se fez o centro na tela daquela manhã xerografada. tudo se desvaneceu. remetidos à permanência de um outro distanciamento, meu fitar vazado de já não ver a outra mulher verteram-se em gesto. sugados por olhos azuis que não conferiram maior opção: ao menos serem encarados.
     hiato deserto, deserto da outra mulher... e dos rastros por ela dispostos em mil direções. ok, todos os passos perdidos são meus! e me dirigi àquele maltrado olhar, plantado no digno desejo de mera reprodução das anotações que lhe eram, mais que suas, sua inscrição.
     juntei meus anzois. e os papeis delas aos meus. frente e verso. duas cópias de cada. claro, tal fulgurante visão não se produz duas vezes no mesmo lugar... mas como me danei eu, enquanto outra Helena reverberava dos olhos azuis daquela maltrapilha Renata Maria, ou alguma outra Maria, ou Renata...
     e nenhuma brisa mais soprou.

6 de jan de 2012

trago uma metáfora nos olhos

o olho direito vem falhando há tempos. da miopia corrigida bons anos atrás, nele restou uma falha médica num dos cortes radiais ali empregados. daí a permanente dificuldade para ajustar lentes do astigmatismo surgido, outra herança da tal cirurgia, então tida como de ponta. mais tarde, a experiência de um deslocamento vítreo, remetendo a viagens lisérgicas: do nada, algo interferindo no campo de visão. sujeira nos óculos? limpos, o problema se manteve; quem sabe algo preso à sobrancelha... que nada. incontroláveis, pontos e manchas e fios e ramificações foram se multiplicando. formas e composições em indescritíveis dimensões. alucinação solta num só lado da visão. até chegarem a verdadeiras explosões, relâmpagos de uma tempestade em céu que anoitecia sem uma nuvem sequer... vários especialistas depois, com exames sob quantidade ímpar de luz projetada no fundo ocular, aos poucos as manchas foram diminuindo. restam certo embasamento e pontinhos que teimam em ter autonomia de movimento e de aparição.
     era o olho ‘ruim’.
     surgiu, enfim, uma estranha inexatidão geral na visão, difícil até de detalhar. gradativamente fez-se complicado precisar as coisas. foi se perdendo o rigor na profundidade entre elas, conjunto de objetos semelhantes, ambientes com determinada iluminação, letras... ah, a leitura! sobrepunham-se letras, linhas embaralhavam-se e a imagem oriunda de cada olho agora tinha tamanho diferente em relação à do outro. uma mesma imagem, mas de dimensões e qualidade distintas. naturalmente, na fusão final feita pelo cérebro, as duas não casavam, gerando incômodo crescente. as mais variadas posições dos óculos no rosto traziam falsas soluções – assim como novos diagnósticos, de numerosos oftalmologistas; são testadas mudanças de eixo nas lentes, diversos e variados exames, testes com lentes de contato especiais... nada. uma suspeita de catara também se viu improcedente. e o desconforto visual só aumentando.
     que mais problemas estariam surgindo na visão direita, de diagnóstico assim tão difícil? eis a minha constante questão.
     até que, quase dois anos após os primeiros sintomas, um mais novo exame pedido em meio a outros (‘por desencargo’) constatou por fim a disfunção da visão: uma membrana epiretiniana, ou membrana macular em celofane, no fundo do olho. sobre a fóvea, tecido nobre para a visão. sem origem identificável, ela distorce os vasos retinianos circundantes e, desse modo, a própria visão daí formada. e tudo isso no olho esquerdo...
    e lá se foi o ‘olho bom’...
    cirurgia possível, mas “sem garantias de sucesso”. além de desagradável pós-operatório, ainda traz efeitos colaterais praticamente garantidos– deslocamento da retina, hemorragia, infecções, entre outras sequelas.
    ou seja, o que era ruim – o olho direito com suas deficiências – mostrou-se ao fim a solução para contrabalançar o prejuízo do esquerdo, insistentemente agora a comprometer a junção final das imagens projetadas por ambos os lados. elas não harmonizam em tamanho nem em função dos desalinhamentos horizontais e verticais provocados pela mácula.
    se história tivesse mesmo moral, seria algo como: não menospreze aquilo que possa parecer ruim, ele pode, ao fim, ser o melhor da tal história. aquilo que turva também pode trazer sentidos, percepções; no desalento e dificuldade, tornar-se escrita. abrir visão.

uma palavra por outra, o bom pelo ruim. o ruim pelo bom, a mácula pela percepção. paradoxo a lembrar que tudo que é pode até de fato ser... o sentido gerado do não-sentido – viscosidade solidificada numa forma genuína de enxergar. e sou lembrado disso a todo instante. basta abrir os olhos. ou apenas um deles.