22 de ago de 2009

coisas

xícaras

bubles

bolas

taças

chão

sem grilo


orquestrado. casamento. supus. teu
grito, esquisito, de suicídio. foi
difícil. imaginar véu, romance, mil
páginas. nem imaginas. aos berros,
o padre, a sinfônica: tudo gravado.
eu engravatado, querendo uma
forca prus meus cornos. tanto des-
gosto. que tive vontade de escrever
um livro. um puta insucesso de
público. te explico. sem grinalda. eu
sem grilo. desligo.

8 de ago de 2009

milena

Não a de Kafka, em friíssima (e trêmula) noite de lua cheia em Praga.

Comigo, quase sombra.

“Nos teus olhos também posso ver as vitrines te vendo passar.”


Natal ao ar livre.

despássaro


(...) empoleirada próximo ao solo, seu baixo poder de voo podia ter origem na ossatura de aparência densa, a resultar asas praticamente em desuso. de andar duro, como aos saltos, definitivamente adaptada – com seu pesado bico desproporcional ao corpo – ao chão úmido da floresta. com penas de esvaecente azul e em aparente desequilíbrio sobre um mísero galho, mantinha-se em meio a sombras de jacintos abrigadores de seu olhar de pedra, a encarar, blasé, a quem nele se fixava, chocado frente a tamanha expressão de tristeza.

O trecho acima compunha a descrição do único exemplar da ave – jamais vista antes nem depois – feita pelo explorador Marcel Bich, em 1951, no coração em trevas da Ásia central. Os traços do exótico animal foram por ele capturados durante desastrada excursão promovida pelo Muséum National d’Histoire Naturelle, sob o patrocínio da então emergente Cristal, empresa francesa especializada em peças para canetas-tinteiro e lapiseiras. Contudo, esse registro não foi suficiente para classificá-la cientificamente. E poderia ter sido? Graças ao jornalista húngaro László Biró, um dos poucos sobreviventes da famigerada expedição, o desenho viu-se recuperado e, quase uma década mais tarde, recebeu breve abordagem numa revista de ornitologia da região de Bourgogne. O ensaio expunha alguns detalhes dos incontáveis percalços da expedição comandada por Bich, como a devastadora febre que se abateu sobre os carregadores nativos, ataques de animais selvagens, fuga do guia e, ao fim, o próprio suicídio do pesquisador francês. Assinado por Edouard Buffard – um pseudônimo de Biró, até hoje se suspeita –, o texto chegava a aventar a classificação do tal pássaro como Pennatus bic hyacinthe. Nenhuma repercussão obteve a publicação. De marco mesmo apenas o fato de ali ter sido reproduzido pela única vez o desenho original de Bich. Ao que tudo indica, sua derradeira contribuição, ainda que frágil, à zoologia.

ao Dudus

traduzir-se

flores / de plástico / estico.
defere.
desisto. / viro-me: / ramalhete.

1 de ago de 2009

meu amigo, o caçador

I. Um pequeno vestígio. Tanto faz o grau. Passado, flashs, lapsos, rastros. O escrever julga tecer e, compondo, apontar o ajuste de trilha. Pista: tocaia de pegadas num presente..II. A busca daquilo que não se sabe ao certo querer. Madrugada rio acima, e agora a marcha. A trilha vaga, vegetação rala e orvalhada em manhã mal surgida. As botas já rotas aos poucos encharcando, o frio entrando também através dos pés. Da pequena mochila às costas, a garrafa com cachaça: esquenta o estômago, mas não contém o arrepio nos braços. A pouca luz vence a neblina e, na floresta que vai se adensando, compõe figuras fantásticas – seres dissimulados e outros nem tanto. A busca constitui, antes de tudo, o simples andar. A caça, o pretexto. Trilhar o sulco pelo chão; na terra batida, as marcas de outras tantas passagens. Procurar no rumo já testado: envolvimento com um verde esbranquiçado, quase tenebroso em função dos calafrios. Treme-se pelo desconhecido, pelas imagens que roçam nas curvas, pelo desvario dos pensamentos – trilhos.
.
III. Meu pai adorava caçar. Por prazer de matar? Ninguém nunca lhe perguntou, particularmente eu nunca pensei a respeito. Certo é que, após a menor permanência nas matas e rios da região, picado de insetos, mais magro e queimado pelo mormaço, meu pai era das pessoas mais doces e tranquilas que já se viu. Os filhos pelo colo brincavam envolvidos na fumaceira de seus charutos e protegidos pela paz que só dele podia irradiar. Ausência pura de riscos: garantia de jamais vir a nos faltar. Contudo, quanto vazio sua lembrança causa hoje! Pela morte dos bichos trazidos, pelo contato com as matas ou pela solidão das trilhas por que se metia, o fato é que, à volta de cada caçada ou pescaria, passava algumas semanas como que encantado. Poderíamos nós ter qualquer preocupação com aquilo que destruíra ou matara? Claro que não.

sequoias


soninho


leopold


natal


igarapé


congonhas


ganz utca


saltos

— Gosto de armar o circo – disse o palhaço. Preparar a fogueira, sua lenha. Pôr terreno em ordem. Levantar os caibros, os cordames, a grande lona. Montar arquibancadas, criar o espaço pra público. As bandeirolas, as lâmpadas, a serragem. Armar.

— A mim, não. Me gosta o trapézio, varar pulos. Ultrapassar muros. Saltitar por aí – comentou o mico.

a mágoa dos igarapés

brincavas com as pedras. absorta, nem vias o brinco, águas, estrelas cadentes passarem.
a mágoa dos igarapés.
não passa tão fácil. águas invadindo, a gente sendo engolido pro fundo.
.
vazaram imagens, possibilidades, dores – passado.
os olhos exorbitados sabem da queda. da atração da areia no fundo. feito túnel: a claridade se perdendo, subindo, distante. e o igarapé arregalando tudo garganta a dentro. mas alguém pula, mergulha, resgata.

.
e volta-se. à tona: retratos em branco-e-preto. imagens enquanto brincavas com as pedras...
a mágoa dos igarapés. a sede. o troco. ida.
de leve, como o gosto que escorre pelo rosto. sem culpa. quente e choroso.