6 de jan de 2012

trago uma metáfora nos olhos

o olho direito vem falhando há tempos. da miopia corrigida bons anos atrás, nele restou uma falha médica num dos cortes radiais ali empregados. daí a permanente dificuldade para ajustar lentes do astigmatismo surgido, outra herança da tal cirurgia, então tida como de ponta. mais tarde, a experiência de um deslocamento vítreo, remetendo a viagens lisérgicas: do nada, algo interferindo no campo de visão. sujeira nos óculos? limpos, o problema se manteve; quem sabe algo preso à sobrancelha... que nada. incontroláveis, pontos e manchas e fios e ramificações foram se multiplicando. formas e composições em indescritíveis dimensões. alucinação solta num só lado da visão. até chegarem a verdadeiras explosões, relâmpagos de uma tempestade em céu que anoitecia sem uma nuvem sequer... vários especialistas depois, com exames sob quantidade ímpar de luz projetada no fundo ocular, aos poucos as manchas foram diminuindo. restam certo embasamento e pontinhos que teimam em ter autonomia de movimento e de aparição.
     era o olho ‘ruim’.
     surgiu, enfim, uma estranha inexatidão geral na visão, difícil até de detalhar. gradativamente fez-se complicado precisar as coisas. foi se perdendo o rigor na profundidade entre elas, conjunto de objetos semelhantes, ambientes com determinada iluminação, letras... ah, a leitura! sobrepunham-se letras, linhas embaralhavam-se e a imagem oriunda de cada olho agora tinha tamanho diferente em relação à do outro. uma mesma imagem, mas de dimensões e qualidade distintas. naturalmente, na fusão final feita pelo cérebro, as duas não casavam, gerando incômodo crescente. as mais variadas posições dos óculos no rosto traziam falsas soluções – assim como novos diagnósticos, de numerosos oftalmologistas; são testadas mudanças de eixo nas lentes, diversos e variados exames, testes com lentes de contato especiais... nada. uma suspeita de catara também se viu improcedente. e o desconforto visual só aumentando.
     que mais problemas estariam surgindo na visão direita, de diagnóstico assim tão difícil? eis a minha constante questão.
     até que, quase dois anos após os primeiros sintomas, um mais novo exame pedido em meio a outros (‘por desencargo’) constatou por fim a disfunção da visão: uma membrana epiretiniana, ou membrana macular em celofane, no fundo do olho. sobre a fóvea, tecido nobre para a visão. sem origem identificável, ela distorce os vasos retinianos circundantes e, desse modo, a própria visão daí formada. e tudo isso no olho esquerdo...
    e lá se foi o ‘olho bom’...
    cirurgia possível, mas “sem garantias de sucesso”. além de desagradável pós-operatório, ainda traz efeitos colaterais praticamente garantidos– deslocamento da retina, hemorragia, infecções, entre outras sequelas.
    ou seja, o que era ruim – o olho direito com suas deficiências – mostrou-se ao fim a solução para contrabalançar o prejuízo do esquerdo, insistentemente agora a comprometer a junção final das imagens projetadas por ambos os lados. elas não harmonizam em tamanho nem em função dos desalinhamentos horizontais e verticais provocados pela mácula.
    se história tivesse mesmo moral, seria algo como: não menospreze aquilo que possa parecer ruim, ele pode, ao fim, ser o melhor da tal história. aquilo que turva também pode trazer sentidos, percepções; no desalento e dificuldade, tornar-se escrita. abrir visão.

uma palavra por outra, o bom pelo ruim. o ruim pelo bom, a mácula pela percepção. paradoxo a lembrar que tudo que é pode até de fato ser... o sentido gerado do não-sentido – viscosidade solidificada numa forma genuína de enxergar. e sou lembrado disso a todo instante. basta abrir os olhos. ou apenas um deles.