31 de ago de 2010

macaxeira

 
Mesmo para os mais antigos manauaras, Hildelbrando Silva provavelmente seja um nome que nada traga de recordação. Mas alguns devem se lembrar do “Macaxeira”, o apelido desse homem moreno, magrinho e grisalho, que fazia parte do folclore urbano da Manaus dos anos 50. Numa época em que ainda não se conhecia a figura do morador de rua, hoje tão frequente nos centros urbanos do país, ele perambulava à toa pela cidade, mas voltava ao fim do dia para sua casa na periferia. Possuidor de algum tipo de perturbação mental, Hildelbrando tinha uma marca própria: se o chamassem por Macaxeira, ato contínuo, ele rabiscava no chão, com uma pedra ou qualquer outra coisa, suas verdadeiras iniciais: HS. Com isso estava dado o sinal: ao concluir tal gesto sairia correndo ensandecido atrás de quem gritara o detestado apelido.
     A exata razão desse apelido é desconhecida. Contudo, há outro causo, que traz relação com este, melhor sustentado quanto ao emprego da alcunha. Naquela mesma época chegou por lá um delegado de Trânsito, Raimundo Nonato de Castro, que inovou no exercício do cargo: pela primeira vez em Manaus, aplicaram-se sinalizações de solo, para designar sentidos de mão de trânsito, vagas de carros e coisas assim. O povo não perdeu tempo e logo transferiu àquele político, que passara a “riscar o chão” da cidade, o apelido do Macaxeira, com o que deixava o tal delegado louco da vida – ainda mais que o próprio Hildebrando...

a partir de rememoração de Helio Braga e registro de Edu

20 de ago de 2010

sob o escape das palavras

então se dispôs a anotá-las. uma comprida lista passou a compor, centopeia a se alongar. aquele termo fugidio em meio a uma conversação, aflorado à mente só após o seu término, um outro que não vinha à cabeça ou ao papel apesar de fundamental à expressão do sentido pretendido, o email paralisado, esburacado na ausência da fusão precisa de determinadas sílabas... também compunham a tripa vernacular vocábulos emergidos à toa, sem que sua semântica pretendesse ser empregada de imediato ao que quer que fosse – unicamente por pura captura do som, ritmo das sílabas deles; ou ainda ao se destacarem, por vaga identificação de sentido ou sua fonética, por casual tropeço em texto alheio, manchete de jornal, comentário solto de alguém. assim, enquanto restavam com frescor na memória, ante o risco de caírem no vácuo do esquecimento, ele transferia tais palavras para a listagem. de perninhas cada vez mais numerosas, miriápode significância a suscitar utilização de modo mais orgânico. espectro de texto. vulto narrativo.

estavam por lá consentâneo, desfaçatez, escarafunchar, idiossincrasia, ipisis litteris, lápis-lazúli, nheengatu, unanimismo... relação. apenas cada signo em si. na inexistência da menor referência a qualquer frase, muito menos relato. processo inverso ao digerir palavras, comê-las. por assimilar. em feitio de absorção de sentidos para discurso. na verdade, mais para anotações de receitas, quando indicado: “reservar”. antes de ganhar aplicação. emprego. ou feito massa posta a descansar. à espera de ir ao forno. garantia de que não se perdessem. como que tateando ao redor de uma intenção de expressão, feito predador e presa. bordeando algo para o qual aquelas palavras possuíssem um propósito, embora ali oculto, a lhes garantir futuro significado num todo. qualquer todo. mas já aí em um primeiro indício, mesmo vago e impreciso: algo começava a se mover. estava a se processar. para além do miriápode vocabularizável. início. iniciação, apontando para o interior de um mistério. o do se poder vir a criar. invento! o próprio mistério. etimologia como necessidade de sentido para o fato da vida não bastar.

os vocábulos, assim em sua apresentação isolada, per si, também tinham-lhe outros ecos. como no relativo aos nomes próprios. quanta dificuldade em recordá-los, buscando vinculá-los a rostos encontrados em passado antigo ou próximo. pior: momentos angustiantes entre trocar cumprimentos inesperados, sem que o nome do dito-cujo aflorasse. estabelecer os primeiros diálogos, enquanto – preocupando-se em não transparecer as tribulações que lhe iam por dentro – percorria o alfabeto, apostando que, ao se deparar com a primeira letra do nome do sujeito, o termo fugidio se fizesse delineado à mente. a, b, c, d... muitas vezes isso dava certo. mas quantas vezes ...u, v, x, z! e nada! e toca a recomeçar: a, b, c, d... à medida que a conversa rolava na mais natural das aparências. e voltava a passar tipo fotograma de filme: ...e, f, g, h...

6 de ago de 2010

sem contrapartida


 Numa espécie de sofá largo, assisto televisão ao lado de uma moça bem jovem, bonita e de olhos claros, por quem me encontro verdadeiramente apaixonado. O sentimento não chega a ser retribuído. Não me importo.
     Estamos com nossas cabeças apoiadas no encosto e, entre nós, está sentado, na beira do acento, o filhinho dela de uns poucos anos – a ele também amo, indiferentemente ao próprio amor à mãe ou à sua eventual não retribuição ao meu. Ergo-me e carinhosamente o trago para ficar melhor acomodado, apoiado de modo igual ao encosto.
     O gesto, puro em afeto e cuidado, é percebido em toda a extensão pela mãe. Ela aproxima, então, seu rosto do meu, meiga e lentamente, quase em circunstância de me amar, a partir da percepção do amor que dedico a seu filho.
     Claro, tal possibilidade de retribuição (quem sabe mesmo de compartilhamento) do amor é muito bem-vinda. Mas me ocorre ser curioso lhes dedicar sentimentos tão incondicionais e, ao mesmo tempo, independentes entre si, como ainda o fato de que, de minha parte, não importar haver, em contrapartida, retribuição – enquanto o amor dela ganha expressão, e transferência, apenas quando da identificação do que sinto pelo seu filho...