22 de jan de 2010

micros



saída
Saiu e pulou. Voou, voou; única saída.
Aluguel não pago, paletó poído nos cotovelos e a filha pequena (três anos) vieram à cabeça. Sua mulher não perdoaria, sabia – e ele flutuava. Tudo cessou com o estrondo no chão. Foram 17 andares.

terça, meio dia
Passam-me sapatos pretos, amarelos, de pano ou couro, alpercatas. O salto alto mais fino faz cócegas, o tamanco largo pesa. A leveza da havaiana confunde-se com a sola suja dos pés descalços do pedinte. Papéis amassados, tocos de cigarro, catarro e poeira – tudo fica grudado em mim pelo passar da multidão costumeira.
Sou a calçada de uma esquina da São João.

despacho que vi ser feito numa encruzilhada obscura, pras
bandas de santo amaro, ao término de uma sexta-feira 13
Brancos dentes de negra reluzidos por sete velas em meio a cheiro de sangue, cachaça, galinha morta, farinha.

por fora
Escancarou o guarda-roupa. Retirou e foi colocando os olhos azuis, o ondulado cabelo, o peito direito e alguns botões. Apanhou o batom no banheiro e não perdeu a festa.

que chato...
Morreu um grande amigo meu, amigo desde a infância. Rapaz sadio, de boa família, lido. Nos estimávamos bastante, apesar de já fazer bons anos que não nos víamos. Morte estúpida, como todas as mortes. Se sobrar um tempo, talvez vá ao seu enterro.

ligo!
A mãe pega a filha em beijo de língua com o namorado no meio da sala – expurgo. Os dentes límpidos: Kolynos. Falatório infindo: programa de auditório dominical. O tira careca de pirulito na boca. Desligo. Êta televisão besta!

Um comentário:

  1. Salve,mestre!

    Então o bichinho dos minicontos pegou vc? E pegou de jeito, viu... Numa visada mais teórica, e chata (concordo), tens nesta série exposta um belo miniconto, sim... "saída" - esse é digno de figurar numa coletânea do gênero.

    Salve, Marcelino Freire!

    Abraços!

    Alê.

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obrigado por suas gotas!