3 de set de 2009



a graça e a leveza e o equilíbrio e a perfeição de uma bolha em direção à superfície. é justamente o oposto: ela irrompe de modo devastador a linha tênue da entrega noturna. fende o breu do quarto em cunha de palavras soltas ou frases livres, sussurros indistintos sem dentro nem fora. uma sonora presença faz-se instaurar. na ausência de qualquer controle, o sufocar estratificado. feito peixe querendo se ver fora d’água. disparate em tentativa última de sobrevivência. estado de latente insanidade, num latido abafado à porta da desrazão.
      aquilo projetado como passagem, temporário – noite rotineira de sono –, vê-se estampado como um definitivo não tempo. supressão de escolha, negativa de opção em continuar a dormir, projetado que se é à vigília, mas que tampouco se efetiva. notívago impasse. metabolismo suspenso em pleno salto. em vez da entrega, do relaxamento, a imposição de um afogar no seco do leito. lençóis revoltos em emparedamento entre os dois estados, nem desperto nem adormecido.
      apartado do mundo dos que dormem, num hiato de agonia, a rolar na cama encharcada de murmúrios de hemorragia auditiva e sem vislumbre de saída. é tudo o de não gracioso. em oposição àquele com que uma bolha se move até se fundir com o ar acima do limite d’água. inevitável invasão em sentido contrário. anulação. imergindo inexorável no vazio plenamente audível do escuro. redemoinho a tragar ao fundo. cada vez mais distante do fio divisor, da líquida tensão superficial do são.
      esgarçado, o corpo exausto e ex-sujeito assujeita-se à mente furiosa em seu vomitório, a bom triturar falas e a reorganizá-las aleatoriamente, frases infindas, impensáveis conversações. antropofagia que consome, antes de tudo, o próprio equilíbrio. palavras tantas para quê? de que profundidade provêm? escoamento irrepresável rompendo léxico e nexo. o que exatamente as descontrolam? em enxurradas, me invadem e esvaem à última gota. na ausência total de luz, olhos e saúde arenosos.
      verdadeiro afogamento pra dentro, guelras entupidas como se por respirar areia, premido por secura saariana. ao fim, alguma energia é recolhida para romper com tal círculo de aparente infinitude: tomar um eficaz dormonid em 15 mg. e escapar. ainda que sem noção das razões de tudo aquilo, sequer do tempo ali passado. ouço ainda uma voz derradeira a confirmar: — sim, toma!

2 comentários:

  1. (preciso comentar de novo)

    angustiosamente fantástico!
    "feito peixe querendo se ver fora d’água."

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obrigado por suas gotas!