21 de jul de 2012

frágil sensatez

o ar gelatinou-se. seu leque de cores poderia ser cortado a estilete. veio de um fundo imensurável a apresentação em voz grave e segura. moradora de rua, solicitava xerox a serem pagos com o que pudesse... duas cópias de cada página. voltaria para acertar a diferença assim que desse.
     mal-estar instaurado, restou, do atendente, uma não resposta para que aguardasse.
     cônscio de não alimentar o clímax, meu olhar era puro esquivo. suficiente para, minimamente, sinalizar consideração pela mulher? não mirar diretamente a dona da voz – que advinhava bem ao lado – traria, por si, algum grau de respeito por sua autêntica identidade? a oceânica diferença que sua afirmação estabelecia à frágil sensatez cotidiana poderia ser transposta? eu inquerindo, como a um salva-vidas no banco dos réus.
     em estado latente, reverberação de reprografia em contenções íntimas – sustentadas a duras custas. desde olhos outros: relatos efetivos, tidos, críveis, havidos ou não. afetos no âmago implantados, represados por manifestação distanciada. igualmente cônscia. lapso de tempo e de planos, sem tons, subtons nem meios. ali presentificado!
     e transborda. impossível manter ao largo a figura alinhada ao mesmo balcão e que, sem o menor artifício, naquele instante se impunha em silêncio. insistência mansa contra o pretender generalizado em evitá-la
     ela se fez o centro na tela daquela manhã xerografada. tudo se desvaneceu. remetidos à permanência de um outro distanciamento, meu fitar vazado de já não ver a outra mulher verteram-se em gesto. sugados por olhos azuis que não conferiram maior opção: ao menos serem encarados.
     hiato deserto, deserto da outra mulher... e dos rastros por ela dispostos em mil direções. ok, todos os passos perdidos são meus! e me dirigi àquele maltrado olhar, plantado no digno desejo de mera reprodução das anotações que lhe eram, mais que suas, sua inscrição.
     juntei meus anzois. e os papeis delas aos meus. frente e verso. duas cópias de cada. claro, tal fulgurante visão não se produz duas vezes no mesmo lugar... mas como me danei eu, enquanto outra Helena reverberava dos olhos azuis daquela maltrapilha Renata Maria, ou alguma outra Maria, ou Renata...
     e nenhuma brisa mais soprou.

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