porquanto chovesse, a água a escorrer não parasse, o tempo teimasse em não se firmar
e não houvesse perspectiva do menor perdão à existência,
todos nos deixamos levar, vagos,
pelos desvãos da ausência dela.
ainda à Olguinha
após o fim de semana prolongado por feriado, de paixão intensa e desejos inebriantes satisfeitos, ele pega o avião de volta à sua cidade, enquanto ela, o carro pela autopista, em direção à sua.
Clarisse e Sofia, é como se chamam. Nelas, praticamente só os nomes são diferentes. O encaracolado dos cabelos, o sorriso que chega às bochechas e a enorme curiosidade para com tudo que vai à volta, isso tudo é idêntico nas duas. Difícil mesmo, quase sempre, fica em saber qual é a Clarisse, qual a Sofia...
Quando como que assoado de ti, pus-me a errar. Vago, sem qualquer consistência que pusesse sentido àquela dispensa: plena e efetiva em seu completo descaso. Descarte a toda prova.
Um sorriso cínico
a primeira visão foi no escuro dum cinema. pelo recorte de silhueta algumas fileiras adiante, tela em luz ao fundo. o cabelo em corte prático e de irrequieto parar, por tão liso. feito fotogramas: flashes um a um. depois, posta de pé, surge o corpo delgado e de frágil aparência. para logo se fazer voz: pausada, de timbre algo metálico, emoldurada num constante quase sorriso, entre tímido e moleque. em seu autocontrole e clareza, logo põe em dúvida a aventada fragilidade. estava mais para uma autonomia de inesperadas características. mas quais?
estrelas gotejam no céu vítreo amazônico. a projetar origens, o regional singra o Negro, a noite, a vidraça, a floresta hipnótica sempre ao largo.
não faz muito, estava ele de ponta cabeça. ouvia dos irmãos mais velhos relatos que, embevecido, lhe pareciam mágicos e topava tudo o que indicavam fazer. como se deixar fotografar por eles nas poses mais inusuais
às cinzas tudo volta. tudo da mesma materialidade – em seus átomos germinais – permanece composto. assim a chuva à terra os reintegra, recompõe, recicla, enquanto o tempo cumpre a sua parte.
Encontro-me numa pequena sala, que interliga pelo menos dois quartos. Daquele que fica à minha direita, sai uma mulher vietnamita, dirigindo-se ao outro cômodo, onde fala a um homem, também vietnamita, para agora ir cuidar da criança, filho deles. Ele o faz, mas meio a contragosto. Ambos são magros, longilíneos, de roupas claras e folgadas. A mulher seria uma alta dirigente partidária, em alguma esfera de governo, cargo já ocupado pelo marido, que hoje não tem nenhum posto relevante. Minha função ali seria de guarda ao casal, em particular da mulher. Sentado numa cadeira, de costas para a parede, tenho em minhas mãos uma arma [ou um instrumento musical].
Seria um momento relaxado, e mesmo íntimo, em nossa juventude, possivelmente compartilhado com algumas doses, às quais ela já era chegada. E surgiu em meio à sua fala.
utilização de modo mais orgânico. espectro de texto. vulto narrativo.
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