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27 de jan. de 2013

clone age


Qualquer semelhança com Portrait of an Artist (Pool with two Figures)
de David Hockney, 1971, não é mera coincidência...

20 de nov. de 2012

dentro dele


A circunferência está no centro,
na semente está o fruto,
Deus no mundo;
o que for inteligente
buscá-lo-á dentro dele.
Daniel von Czepko,
aliás Angelus Silesius (1605-1660)

6 de jan. de 2012

trago uma metáfora nos olhos

o olho direito vem falhando há tempos. da miopia corrigida bons anos atrás, nele restou uma falha médica num dos cortes radiais ali empregados. daí a permanente dificuldade para ajustar lentes do astigmatismo surgido, outra herança da tal cirurgia, então tida como de ponta. mais tarde, a experiência de um deslocamento vítreo, remetendo a viagens lisérgicas: do nada, algo interferindo no campo de visão. sujeira nos óculos? limpos, o problema se manteve; quem sabe algo preso à sobrancelha... que nada. incontroláveis, pontos e manchas e fios e ramificações foram se multiplicando. formas e composições em indescritíveis dimensões. alucinação solta num só lado da visão. até chegarem a verdadeiras explosões, relâmpagos de uma tempestade em céu que anoitecia sem uma nuvem sequer... vários especialistas depois, com exames sob quantidade ímpar de luz projetada no fundo ocular, aos poucos as manchas foram diminuindo. restam certo embasamento e pontinhos que teimam em ter autonomia de movimento e de aparição.
     era o olho ‘ruim’.
     surgiu, enfim, uma estranha inexatidão geral na visão, difícil até de detalhar. gradativamente fez-se complicado precisar as coisas. foi se perdendo o rigor na profundidade entre elas, conjunto de objetos semelhantes, ambientes com determinada iluminação, letras... ah, a leitura! sobrepunham-se letras, linhas embaralhavam-se e a imagem oriunda de cada olho agora tinha tamanho diferente em relação à do outro. uma mesma imagem, mas de dimensões e qualidade distintas. naturalmente, na fusão final feita pelo cérebro, as duas não casavam, gerando incômodo crescente. as mais variadas posições dos óculos no rosto traziam falsas soluções – assim como novos diagnósticos, de numerosos oftalmologistas; são testadas mudanças de eixo nas lentes, diversos e variados exames, testes com lentes de contato especiais... nada. uma suspeita de catara também se viu improcedente. e o desconforto visual só aumentando.
     que mais problemas estariam surgindo na visão direita, de diagnóstico assim tão difícil? eis a minha constante questão.
     até que, quase dois anos após os primeiros sintomas, um mais novo exame pedido em meio a outros (‘por desencargo’) constatou por fim a disfunção da visão: uma membrana epiretiniana, ou membrana macular em celofane, no fundo do olho. sobre a fóvea, tecido nobre para a visão. sem origem identificável, ela distorce os vasos retinianos circundantes e, desse modo, a própria visão daí formada. e tudo isso no olho esquerdo...
    e lá se foi o ‘olho bom’...
    cirurgia possível, mas “sem garantias de sucesso”. além de desagradável pós-operatório, ainda traz efeitos colaterais praticamente garantidos– deslocamento da retina, hemorragia, infecções, entre outras sequelas.
    ou seja, o que era ruim – o olho direito com suas deficiências – mostrou-se ao fim a solução para contrabalançar o prejuízo do esquerdo, insistentemente agora a comprometer a junção final das imagens projetadas por ambos os lados. elas não harmonizam em tamanho nem em função dos desalinhamentos horizontais e verticais provocados pela mácula.
    se história tivesse mesmo moral, seria algo como: não menospreze aquilo que possa parecer ruim, ele pode, ao fim, ser o melhor da tal história. aquilo que turva também pode trazer sentidos, percepções; no desalento e dificuldade, tornar-se escrita. abrir visão.

uma palavra por outra, o bom pelo ruim. o ruim pelo bom, a mácula pela percepção. paradoxo a lembrar que tudo que é pode até de fato ser... o sentido gerado do não-sentido – viscosidade solidificada numa forma genuína de enxergar. e sou lembrado disso a todo instante. basta abrir os olhos. ou apenas um deles.

15 de out. de 2011

olhar de jacaré

feito túnel, visão através de olho de jacaré. num pântano, envolvido por denso nevoeiro, o sujeito arma-se de pernas de pau no intento de atravessar incólume meu sonho. mácula em sombra, filme não assistido, vagas de cores psicodélicas ao acordar.

4 de set. de 2011

27 de ago. de 2011

esta cidade não é a minha.
     aquela em que fui gerado, parido e na qual vivi minha infância impregnou-me com suas águas negras e límpidas. e ainda por calor insuportável e umidade em forma de respiro. seu provincianismo pra sempre a sufocar, pior que brotoejas – jamais tê-lo na pele. nenhum talco jhonson misturado a alfazema dá conta. ventilador, por mais rente, não o alivia. e negar tal cidade também fez parte da presença dela em mim. na recusa, sua afirmação. ou, ao negá-la, confirmar – sua ausência de mim. perda a configurar.
     contudo, é nesta cidade atual que me reencontro. numa noite especialmente fria, plena de garoa, o deparar com o acelerado ritmo cultural do lugar. estar cara a cara com Herzog – o ‘diretor de anões’ em carne e osso – e seus documentários apenas emblematiza esse fluxo indescritível de paulistanidade. e tudo isso me presentifica e flui e me percorre, ainda mais efetivamente que o vento gelado a esgueirar-se sob a roupa pesada.
     pelos enquadramentos da urbe, redescobrimento de gentes – apesar de toda sua imensidão a se perder. três ou mais décadas passadas. como que pausada. e retomada sem paralelos. só aqui possível, posto esquinas de minhas circunstâncias. mesmo após anos e anos fora, é nela que uma gênese fílmica se projeta. psique a borbulhar, narrativas impensadas de outro cruzar. frio e garoa banhando a alma, profundamente feito o bordejo de um igarapé amazônico.
     nas margens, algo não concluído. a realizar-se. um aspecto de permissão, de insanidade, de encontro radical consigo. lampejo integral. um artístico por ser escrito. inscrito. borda. e um contínuo deslocar.

18 de fev. de 2011

contrastes contidos contigo

a primeira visão foi no escuro dum cinema. pelo recorte de silhueta algumas fileiras adiante, tela em luz ao fundo. o cabelo em corte prático e de irrequieto parar, por tão liso. feito fotogramas: flashes um a um. depois, posta de pé, surge o corpo delgado e de frágil aparência. para logo se fazer voz: pausada, de timbre algo metálico, emoldurada num constante quase sorriso, entre tímido e moleque. em seu autocontrole e clareza, logo põe em dúvida a aventada fragilidade. estava mais para uma autonomia de inesperadas características. mas quais?

restou a direta pergunta: quem és tu? quem és tu a me mobilizar em meio à penumbra fílmica, estilhaçando roteiros já assistidos?

e deu-se a resposta, “num fluxo de pensamentos”:

Estou sendo, uma vez que resultado da minha vontade, dos perceptos e das forças que me atravessam sem paragem numa velocidade infinita. Acerca disso, atribuo sentidos e significados que cambaleiam na tentativa de se tornarem fixos. Mas isso é praticamente inviável, ao passo que a vida em movimento transforma e arrebata todos os conceitos. Vicissitudes, enleios e desejos – é isso que sou. Um emaranhado de pensamentos em busca de nomes para os objetos do conhecimento. É neste conflito que me faço, me recrio e desloco. Sinto-me ansiosa, embora anseie poucas coisas. Sonho em conhecer mundo além dos livros. Quero ainda cantar libertamente com a minha voz rouca. Gosto de compartilhar as coisas na minha hora, dormir bastante e sem demora. Para mim a vida parece simples na sua complexidade – pena a nossa consciência ser uma tragédia e uma angústia que alerta a inquietude diante da nossa finitude [...]. O sol me incomoda na sua intensidade. E o excessivo barulho me causa dores de cabeça. Tento ser responsável e acho possível reconstruir algo que valha a pena. Nesse sentido, procuro não deixar escorrer por entre meus dedos as possibilidades criativas e novas formas vida. Acho que o humano possui uma potência e, sendo ele atento e sensível àquilo que o circunda, é capaz de efetivar suas perspectivas em ato, em um estado que pulsa para algo pleno. Acho que é isso que estou sendo – mas não para, não cessa, até...

e ela ainda canta, filosofa, gosta de outras meninas e, sim, é uma graça.

16 de fev. de 2011

singrando o Negro

estrelas gotejam no céu vítreo amazônico. a projetar origens, o regional singra o Negro, a noite, a vidraça, a floresta hipnótica sempre ao largo.
.....artifícios, esquadro, janela, o recanto em uma casa, um acalanto fictício. águas de uma cidade que nunca deixaram de passar. sementes negras em promessas de um dia me levares contigo.

10 de out. de 2010

sem vestígio




perdeu o pé
o passo a realeza


nem pôde, na volta,
seguir as próprias pegadas


pela areia, o vento do desalento
levou-nos a todos

31 de ago. de 2010

macaxeira

 
Mesmo para os mais antigos manauaras, Hildelbrando Silva provavelmente seja um nome que nada traga de recordação. Mas alguns devem se lembrar do “Macaxeira”, o apelido desse homem moreno, magrinho e grisalho, que fazia parte do folclore urbano da Manaus dos anos 50. Numa época em que ainda não se conhecia a figura do morador de rua, hoje tão frequente nos centros urbanos do país, ele perambulava à toa pela cidade, mas voltava ao fim do dia para sua casa na periferia. Possuidor de algum tipo de perturbação mental, Hildelbrando tinha uma marca própria: se o chamassem por Macaxeira, ato contínuo, ele rabiscava no chão, com uma pedra ou qualquer outra coisa, suas verdadeiras iniciais: HS. Com isso estava dado o sinal: ao concluir tal gesto sairia correndo ensandecido atrás de quem gritara o detestado apelido.
     A exata razão desse apelido é desconhecida. Contudo, há outro causo, que traz relação com este, melhor sustentado quanto ao emprego da alcunha. Naquela mesma época chegou por lá um delegado de Trânsito, Raimundo Nonato de Castro, que inovou no exercício do cargo: pela primeira vez em Manaus, aplicaram-se sinalizações de solo, para designar sentidos de mão de trânsito, vagas de carros e coisas assim. O povo não perdeu tempo e logo transferiu àquele político, que passara a “riscar o chão” da cidade, o apelido do Macaxeira, com o que deixava o tal delegado louco da vida – ainda mais que o próprio Hildebrando...

a partir de rememoração de Helio Braga e registro de Edu

6 de ago. de 2010

sem contrapartida


 Numa espécie de sofá largo, assisto televisão ao lado de uma moça bem jovem, bonita e de olhos claros, por quem me encontro verdadeiramente apaixonado. O sentimento não chega a ser retribuído. Não me importo.
     Estamos com nossas cabeças apoiadas no encosto e, entre nós, está sentado, na beira do acento, o filhinho dela de uns poucos anos – a ele também amo, indiferentemente ao próprio amor à mãe ou à sua eventual não retribuição ao meu. Ergo-me e carinhosamente o trago para ficar melhor acomodado, apoiado de modo igual ao encosto.
     O gesto, puro em afeto e cuidado, é percebido em toda a extensão pela mãe. Ela aproxima, então, seu rosto do meu, meiga e lentamente, quase em circunstância de me amar, a partir da percepção do amor que dedico a seu filho.
     Claro, tal possibilidade de retribuição (quem sabe mesmo de compartilhamento) do amor é muito bem-vinda. Mas me ocorre ser curioso lhes dedicar sentimentos tão incondicionais e, ao mesmo tempo, independentes entre si, como ainda o fato de que, de minha parte, não importar haver, em contrapartida, retribuição – enquanto o amor dela ganha expressão, e transferência, apenas quando da identificação do que sinto pelo seu filho...

25 de mai. de 2010

testículos

.  escrever é uma febre constante que queima por dentro. o suadouro é pelo por pra fora; fazê-la baixar, justamente pelo papel.

. sem sequer conhecer as paredes brancas a cal do agreste Mediterrâneo. sentir seu calor em sal, têmpera em rochas, oliveiras.

. nos lençóis revoltos enrolo meus rolos. rolo o tempo incomodado pela certeza de que o despertador, indiferente, berrará eficiente às 6h40. na ausência de paredes no ainda negror de fim de noite, arregalo os olhos pro nada, sem parâmetros de espaço, a não ser o contato vertical com o colchão. remoo esbugalhado os anseios, essa total falta de sono e saída.

. a ideia da morte ligada à de formigas. ser inumerável e sua perenidade. em soma. falta de individualidade, na vulgaridade que lhe é própria. nos corredores, terras, lixos, porões, estruturas. mas, principalmente, pela minha pia.
      na inevitável identificação. no limite inarredável do termo de cada um. morte – no só, no dentro de si, no passar e as formigas ficarem. sempre houve. e restarão pra todo o depois.

. o passo com prioridade deve ser o de acalmar. envolver, tecer o todo. o conjunto, a unidade. o centro. selva de si.
      contudo, uma relação amorosa pode centrar em definitivo. arriscado demais pra quem é agitado. desmatado, coitado...

25 de abr. de 2010

a dormir


eu durmo, tu dormes, qualquer um dorme
mas assim linda de morrer, sensual e feito
anjo a um só tempo, apenas minha filha
ilha de impressões, jorro fluvial de afetos

24 de out. de 2009

do centro

 sala de estar. recorte, mero enquadramento. a esquadrinhar foco, um dentre tantos. possíveis ângulos, arestas por aparar, restos. postos sobre a mesa de centro, entre sombras e luz em declínio. um novo corte, contraplanos, enganos. linhas, vãos – apenas um registro. frágil traço, como a giz, delineando rendas de tuas disposições. aliança frouxa, riso de escárnio. nem precisaria: situação emoldurada na parede oposta da sala com a marca daquele quadro nunca mais ali reposto. frágeis cavalos de batalha. teu robe há muito largado no banheiro, sem a menor desilusão. peças que nos pregamos espalhadas, travestidas relações. restam as malas abertas. pra onde? diálogos de férrea desconversa. metálica liga casada entre bronze e sino à porta de entrada. sequer ainda ressoa kind of blue pela casa. por cômodos vazios, nossos silêncios divagam por tantas impressões. desvão: recônditas ausências, nem mais a se valer do corrimão e seu arrojo encarnado. nosso barro cozido, tijolos que erguemos como pano de fundo: monólogos tolos, livros soltos, nós pelos cantos. nada desatado. e ainda a cozinha em sua falta de rescaldo. mesmo assim a mesa de centro permanece impecável.


foto: Oli

12 de set. de 2009

em moldura



















                      o que vale é o encanto.
                     

                      que te causo
                             o caos
                             a limpa
                             o desassossego
                      é fato (e espanto).
                     

                      falo do encanto
                     que tu me causas.


Escreveu isso num papel por sobre o colo e o guardou no bolso da calça. Em seguida cobriu o quadro da sala de estar com um fino lenço palestino. Através de sua transparência e listas avermelhadas ainda podiam ser vistas as cores fortes dos rostos mascarados, do passar do escárnio, do rasgo da terra.
     Deixou uma pequena carta sobre a mesa. Só lá pelas 10 da noite Adélia foi dar pela falta do marido.
     Nunca mais voltou.

8 de ago. de 2009

despássaro


(...) empoleirada próximo ao solo, seu baixo poder de voo podia ter origem na ossatura de aparência densa, a resultar asas praticamente em desuso. de andar duro, como aos saltos, definitivamente adaptada – com seu pesado bico desproporcional ao corpo – ao chão úmido da floresta. com penas de esvaecente azul e em aparente desequilíbrio sobre um mísero galho, mantinha-se em meio a sombras de jacintos abrigadores de seu olhar de pedra, a encarar, blasé, a quem nele se fixava, chocado frente a tamanha expressão de tristeza.

O trecho acima compunha a descrição do único exemplar da ave – jamais vista antes nem depois – feita pelo explorador Marcel Bich, em 1951, no coração em trevas da Ásia central. Os traços do exótico animal foram por ele capturados durante desastrada excursão promovida pelo Muséum National d’Histoire Naturelle, sob o patrocínio da então emergente Cristal, empresa francesa especializada em peças para canetas-tinteiro e lapiseiras. Contudo, esse registro não foi suficiente para classificá-la cientificamente. E poderia ter sido? Graças ao jornalista húngaro László Biró, um dos poucos sobreviventes da famigerada expedição, o desenho viu-se recuperado e, quase uma década mais tarde, recebeu breve abordagem numa revista de ornitologia da região de Bourgogne. O ensaio expunha alguns detalhes dos incontáveis percalços da expedição comandada por Bich, como a devastadora febre que se abateu sobre os carregadores nativos, ataques de animais selvagens, fuga do guia e, ao fim, o próprio suicídio do pesquisador francês. Assinado por Edouard Buffard – um pseudônimo de Biró, até hoje se suspeita –, o texto chegava a aventar a classificação do tal pássaro como Pennatus bic hyacinthe. Nenhuma repercussão obteve a publicação. De marco mesmo apenas o fato de ali ter sido reproduzido pela única vez o desenho original de Bich. Ao que tudo indica, sua derradeira contribuição, ainda que frágil, à zoologia.

ao Dudus

1 de ago. de 2009

saltos

— Gosto de armar o circo – disse o palhaço. Preparar a fogueira, sua lenha. Pôr terreno em ordem. Levantar os caibros, os cordames, a grande lona. Montar arquibancadas, criar o espaço pra público. As bandeirolas, as lâmpadas, a serragem. Armar.

— A mim, não. Me gosta o trapézio, varar pulos. Ultrapassar muros. Saltitar por aí – comentou o mico.

31 de jul. de 2009