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17 de dez. de 2015

verão


                                              talvez vocês consigam
                                              atravessar esse verão
                                              talvez possam matar sua sede
                                              com jarras de cleriquot
                                              enxergar vultos nas montanhas
                                              saber o suficiente para falar sobre 
                                              o que falar à beira de uma piscina
                                              onde uma abelha se afoga
                                              no que resta de azul
                                              esta é a cor dos meus sonhos
                                              talvez vocês consigam 
                                              atravessar esse verão 
                                              mas poderão me perdoar
                                              pelo meu fracasso?

                                                                                                                   Julia de Souza

20 de jan. de 2013

tudo aceso

Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado (...)
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos
Âmbar, A. Calcanhoto

15 de ago. de 2011

porquanto chovesse, a água a escorrer não parasse,
o tempo teimasse em não se firmar
e não houvesse perspectiva do menor perdão à existência,
todos nos deixamos levar, vagos, 
pelos desvãos da ausência dela.
 ainda à Olguinha

24 de mai. de 2011


linha d’água num corte de urbe
luminária –
bafejo de noite vazia em pleno
desalento
 

29 de mar. de 2011

libélula fala?

Clarisse e Sofia, é como se chamam. Nelas, praticamente só os nomes são diferentes. O encaracolado dos cabelos, o sorriso que chega às bochechas e a enorme curiosidade para com tudo que vai à volta, isso tudo é idêntico nas duas. Difícil mesmo, quase sempre, fica em saber qual é a Clarisse, qual a Sofia...
......Outro dia estavam a fuçar pelo jardim, na casa de um dos tios delas. Em meio a borboletas e outros seres alados que pousavam de flor em flor e que a todo instante cruzavam com elas, eis que surgiu um bichinho particularmente diferente: era uma libélula, cuja existência até ali desconheciam. Ela parou à frente das meninas e ficou encarando as duas. É, ela parou mesmo no ar! Ficou lá, feito helicóptero: nem subia nem descia, não ia pra frente nem pra trás. Só com as asas batendo e batendo, sem sair do lugar.
......E olhou pra uma, depois pra outra, e voltou pra primeira... As gêmeas logo perceberam que estavam sendo encaradas, vejam só!, por aquele insetinho de asas duplas, imóvel em pleno ar. Até que Sofia, a mais espevitada das duas, se saiu com essa:
......― Que foi?! Nunca viu não, cara de pavio?

......― Não mesmo!, respondeu o bichinho. Assim tão igualzinha uma à outra, nunca mesmo!
......Aí foram as duas que, espantadíssimas, olharam uma pra outra! Credo! E inseto fala? Desde quando? Bem, pelo visto, desde agora – parecia terem concluído as duas, pois logo estavam conversando com a libélula.
......E, olhando-a daquele jeito tão de perto, chamou-lhes a atenção o tamanho dos olhos dela. Clarisse repetiu a pergunta bem conhecida de um livrinho que sua mãe costumava ler pra elas:
......― Pra que esses olhos tão grandes?
......“Ah, eles servem pra ver bem melhor” – explicou a libélula. “Eles têm um monte de divisões, e termina sendo como se fossem muitos e muitos olhinhos, todos bem juntinhos. Assim, enxergo pra tudo que é lado ao mesmo tempo. Ops! e por falar nisso, estou vendo um lanchinho ali!”
......E lá se foi ela atrás de um apetitoso mosquito, deixando Clarisse e Sofia de bocas abertas, enquanto tentavam seguir com os olhos aquele voo muito do seu irriquieto em asas transparentes.

19 de fev. de 2011

sorriso demente

Um sorriso cínico
a caminhar flutuante
cruza o jardim;
aproxima-se e atravessa
a vidraça da minha janela
– vem dizer que chegou.
Não precisava.
Já tinha ouvido pelo ralo da cozinha
todo aquele murmurinho
brotando vivo subindo
pondo a correr baratas
seus cheiros e desejos.
E chegou.
Informalmente se instala;
abre as cortinas
puxa almofadas e
estende-se no sofá.
Está lá.
Ficará novamente
por noites insones
sorridente de dente demente
dizendo
Aqui estou...
Não precisava.

2 de jan. de 2011

o caçula

não faz muito, estava ele de ponta cabeça. ouvia dos irmãos mais velhos relatos que, embevecido, lhe pareciam mágicos e topava tudo o que indicavam fazer. como se deixar fotografar por eles nas poses mais inusuais
....de uma hora pra outra, fez 40 aninhos. mudou, por exemplo, o cabelo, agora cortado sempre rente e já não mais liso. ficou a doçura, o fechado nos sentires, tudo na mesma figurinha luminosa

....há tempos é ele que deixa as coisas de perna pro ar. no insólito, no volume, na diversidade, no hermético, na riqueza – de escritos, leituras, desenhos, comentários, rabiscos, conhecimentos, e ainda de seus velhos silêncios
....e aí eu é que fico sem chão, a perceber tudo a passar, mudanças em não mudanças, crescimentos, perdas, movimentos, tudo o que não volta – e um horizonte sempre por se descortinar

4 de mar. de 2010

22 de jan. de 2010

micros



saída
Saiu e pulou. Voou, voou; única saída.
Aluguel não pago, paletó poído nos cotovelos e a filha pequena (três anos) vieram à cabeça. Sua mulher não perdoaria, sabia – e ele flutuava. Tudo cessou com o estrondo no chão. Foram 17 andares.

terça, meio dia
Passam-me sapatos pretos, amarelos, de pano ou couro, alpercatas. O salto alto mais fino faz cócegas, o tamanco largo pesa. A leveza da havaiana confunde-se com a sola suja dos pés descalços do pedinte. Papéis amassados, tocos de cigarro, catarro e poeira – tudo fica grudado em mim pelo passar da multidão costumeira.
Sou a calçada de uma esquina da São João.

despacho que vi ser feito numa encruzilhada obscura, pras
bandas de santo amaro, ao término de uma sexta-feira 13
Brancos dentes de negra reluzidos por sete velas em meio a cheiro de sangue, cachaça, galinha morta, farinha.

por fora
Escancarou o guarda-roupa. Retirou e foi colocando os olhos azuis, o ondulado cabelo, o peito direito e alguns botões. Apanhou o batom no banheiro e não perdeu a festa.

que chato...
Morreu um grande amigo meu, amigo desde a infância. Rapaz sadio, de boa família, lido. Nos estimávamos bastante, apesar de já fazer bons anos que não nos víamos. Morte estúpida, como todas as mortes. Se sobrar um tempo, talvez vá ao seu enterro.

ligo!
A mãe pega a filha em beijo de língua com o namorado no meio da sala – expurgo. Os dentes límpidos: Kolynos. Falatório infindo: programa de auditório dominical. O tira careca de pirulito na boca. Desligo. Êta televisão besta!

3 de nov. de 2009

pelo olhar da libélula

 
Na Terra do Sol Nascente – nome que damos pro nosso país, né? –, a libélula traz o outono. Deixa tudo quanto é árvore com as folhas queimadas de vermelho e amarelo.” As palavras de batyan, que era como minha vó gostava de ser chamada, brotavam de maneira simples e, de tão natural, quase nem precisava que alguém as estivesse escutando. Às vezes eu ficava mesmo sem saber se falava comigo ou com ela própria.
     ― Era o koyo que chegava, uma época de cores fortes na natureza, né? – completava ela.
     Batyan adorava falar “né”. Em tudo que dizia dava um jeitinho de encaixar um “né?”. Muitas de suas falas vinham cheias de significados novos para o menino de então, até de algum desentendimento. Foi preciso um tempo razoável para dar a dimensão devida a seus repentes e à sua importância em minha vida.
     ― Um poeta japonês bem antigo escreveu: Montanhas ao longe / montanhas nos olhos / da libélula. Bonito, né? – perguntava ela, sem pretender resposta.
     Em meio às recordações a que se permitia verbalizar, não raro acabava um pouco triste, e a expressão dos seus olhinhos puxados por vezes ganhava um tom sombrio. Quem sabe por pura saudade daquelas florestas do Japão com suas árvores de colorido exuberante. E continuava, como que a pensar em voz alta:
     ― A gente é que nem as folhas do outono. Alcançamos a máxima beleza, daí vamos caducando, nos preparando pra secar e depois cair ao vento. O inverno chega pra todo mundo, né? O koyo não é só pras folhas do outono, mas pro outono de gente também, né? Só que, quando se vê isso pelos enormes olhos da libélula, as estações ganham todo um outro sentido...
     Minha batyan não teve uma vida curta, como a das libélulas. Permaneceu conosco muitos e muitos outonos, a ponto de, feito um bordo japonês bem carregado em sua folhagem, ir ficando encurvadinha, e ainda menor do que sempre fora. Porém, esse tempo todo parece não ter sido suficiente, pois até hoje ela faz uma falta danada.
     ― Outono é tempo de comer batata-doce assada em volta da fogueira. É tempo de céu limpo – mas também de tufão, né? Muito perigoso... Lá a gente diz assim: ‘O coração dos homens é céu de outono’. Por isso, né? Tá limpo, mas nele também pode a qualquer hora ventar forte...
     Pouco depois de uma dessas conversas tão soltas de batyan, ela se foi. Mas só muito mais tarde fui perceber que ela havia partido no inverno, final de novembro, época justamente em que todas as folhas das árvores caem. Não o inverno daqui, e sim o inverno da terra dela. Quando, por tudo que é lugar, o chão fica forrado das folhas em vermelho e amarelo do koyo de lá, lá do outro lado do mundo.
     E hoje, absorto ao lado de uma fogueira, penso se seriam as tonalidades dessas labaredas que me trouxeram de volta o esplendor das florestas da terra de batyan. Lembrando palavras suas, que ainda em mim ecoam, acho que o relógio interno dela, apesar dos muitos outonos de Brasil, permaneceu batendo no ritmo das estações da sua querida Hokkaido. Com a mesma leveza dos vôos das libélulas em suas inaugurações outonais, que ela tanto gostava de lembrar, né?
pro João Vitor

27 de set. de 2009

providência



O som do arrastar dos passos é parcialmente encoberto pelo reclamar da porta, só menos velha que a dona dos passos. A peça de madeira é encostada a custo e, no silêncio do saguão lateral da igreja, ressoa apenas o quase rastejar da anciã. Coberta por negra viuvez, não ruma direto para o local de sua contemplação diária, a nave principal, de bancos cada vez menos usados. Todo fim de mês, antes da missa, passa na sacristia, onde padre Batista se prepara para a celebração. A pouca luz e a vista ruim não dificultam a tomada dos corredores, atravessados de modo impassível. Por sob a terceira arcada estanca, olhando em direção ao crucifixo escondido pelo elevado pé direito; em vão tenta distingui-lo do fundo escuro. Na certeza de que a imagem lá permanecia, gesticula a mão direita em um autômato sinal da cruz para depois prosseguir corredor deserto adentro.
....Os olhos gastos e o corpo ressentido pelas doenças acumuladas contrastam com a atividade de sua memória, mesmo que cada vez requisitando o passado mais distante, como murmúrios internos. Sem maiores razões, passa a lembrar da época em que a pequena Vila Providência não tinha nem metade do quase mundaréu de hoje, antes mesmo da estrada de ferro chegar com sua barulheira e gente esquisita, de depravadas roupagens a espalhar o vício do jogo, e na sequência, como para combatê-lo, os templos evangélicos. As minas foram sendo abertas, a cada hora em maior número. Ou terá sido o contrário? As minas é que trouxeram os trens... O fato é que era ouro que não acabava nunca. Mas, quando acabou, tudo tornou a ficar aquietado, mais que antes do tempo das minas e dos trens. Agora, com a vida quase parada, falam até que lá pras bandas da capital tem uma máquina com asas voando sozinha com gente dentro, imagine! Só falta, qualquer dia desses, essa coisa descer aqui – coisa do Demônio, isso sim. Restam, de então, algumas ruas com calçamento, os vários botequins e esses agoniados automóveis do dr. Frederico e do dr. Afonso, únicos ricos que sobraram na redondeza. A Igreja de Nossa Senhora da Seara Divina, nossa última igreja, jaz aí cada dia mais abandonada...
....E entre o puxar de um pé e outro, em meio a ressentimentos com este mundo de perdidos, foram sendo recuperadas imagens nítidas de uma quinta-feira – tinha certeza que fora numa quinta-feira – em que padre Batista chegou em lombo de mula a Providência. Não era o primeiro enviado pela Santa Igreja ao povoado, mas seria o único a aqui permanecer por mais de três meses. E lá se vão vinte e sete anos... Dele muito se tem falado, daquilo feito e do que não fez – o certo é que está bem mudado. Só pela velhice? Sabe-se lá. Não terá sido apenas a careca, sempre encoberta por velho chapéu de feltro preto, ou a barriga que ficou imensa – o mundo de cervejas ingeridas deve ter algo a ver com isso... Há muito não é feito um único arraial para levantar doações, como se não houvesse mais no que empregar os auxílios; procissão, então, deixou de existir desde a morte do último sacristão, com o que padre Batista disse não ter condições para organizar os preparativos sozinho. Todo ano fica sua promessa de que no outro, com mais ajuda e saúde, com certeza farei. O certo é que o tempo não perdoa: estão aí as goteiras, os vitrais quebrados, o cheiro de mofo e a umidade por tudo quanto é canto para comprovar.
....Esse amontoado de anos chega a embaralhar os ocorridos, e mesmo assim insiste em depositar as recordações e suas falas na cabeça das pessoas, como pó sobre os móveis. Já poucos se lembram do escândalo que varou a região e que tanto rendeu em conversas, meses e meses de conversas. Nem um ano tinha em Providência padre Batista quando todos passaram a comentar que ele, já então nosso mais antigo padre, ao final das aulas de primeira comunhão sempre se detinha um pouco mais com a filha do finado seu Mesquita. E os detalhes, dos mais variados e impróprios, variavam conforme a boa vontade de quem contasse. Falou-se que seu Mesquita faleceu de desgosto com a extensão ganha pelos boatos. Maledicência e exagero desse povo – foi mesmo a bebida que o levou. Ora vejam, vivia mais bêbado do que sóbrio. A jovem, hoje mãe de dois homens feitos, mora pra lá de Vila Dina, onde a família foi morar logo após a morte de seu Mesquita. E padre Batista, acontecido por não acontecido, velho e birrento, daqui a pouco começa a missa. Graças à ressonância das paredes antigas, sua voz, rouca pelos fortes cigarros de palha que insiste em consumir, ainda consegue ser ouvida por um número continuamente menor de crentes. Só este ano foram enterradas três Filhas de Maria, cada qual com seus quase 80 anos, todos eles passados em Providência.
....Entra na sacristia. Padre Batista, com a estola de roxo fugidio a balançar-lhe do pescoço, busca algo; o semblante e gestos nervosos não escondem a irritação (passam cinco das cinco). Ela se aproxima, beija-lhe a mão pedindo a bênção, padre. Deus lhe abençoe – e coloque na gaveta, dona Joana, na gaveta. Onde está minha Bíblia, raios? Ah, aqui está. E andando mais rápido do que a própria gota o acostumara, sai em direção ao altar, quando lhe brota uma dúvida: para que a pressa? Sequer procura responder. A gota logo o faz recuperar a freqüência do seu movimento, e o vai retardando aos poucos. Enquanto isso, a velha retira de um de seus bolsos fundos um saquinho onde traz – hoje é fim de mês – o que ainda consegue juntar daquilo ganho com os doces feitos para fora. Como de hábito, põe o conteúdo dentro da gaveta indicada e guarda o saquinho para o próximo mês, se Deus quiser. Segue no mesmo ritmo com que entrara na igreja, no mesmo sentido tomado pelo padre. A missa tinha início. Ouvia-se pelo canto das poucas fiéis:
....Que poderei retribuir ao Senhor / Por tudo o que Ele me tem dado? / É preciosa aos olhos do Senhor / A morte dos seus santos. / Meu corpo é teu, guarda-o fiel ao teu amor e que / Minh'alma também viva sempre na alegria. / Assim como era no princípio agora e sempre / E por todos os séculos dos séculos. / Amém.....De véu à cabeça, cruza o altar-mor já acompanhando, de cor e salteado, o cântico das mulheres presentes, todas de hinários nas mãos. Junta-se a elas. O reumatismo há muito a impede de se ajoelhar, mas em pé, invariavelmente na segunda fileira, ao lado do corredor principal, ela dirige o olhar para a cruz maior alumbrada por velas compridas, por detrás da figura do padre. Do conjunto, seus olhos cansados retêm mera imagem difusa, em que apenas se ressalta o ponto de luz irriquieto de cada vela.
....Próximo à porta escancarada da igreja, às costas das mulheres, um cachorro magro ressona sobre o piso frio, e não ouve padre Batista proferir a missa das cinco.

3 de set. de 2009



a graça e a leveza e o equilíbrio e a perfeição de uma bolha em direção à superfície. é justamente o oposto: ela irrompe de modo devastador a linha tênue da entrega noturna. fende o breu do quarto em cunha de palavras soltas ou frases livres, sussurros indistintos sem dentro nem fora. uma sonora presença faz-se instaurar. na ausência de qualquer controle, o sufocar estratificado. feito peixe querendo se ver fora d’água. disparate em tentativa última de sobrevivência. estado de latente insanidade, num latido abafado à porta da desrazão.
      aquilo projetado como passagem, temporário – noite rotineira de sono –, vê-se estampado como um definitivo não tempo. supressão de escolha, negativa de opção em continuar a dormir, projetado que se é à vigília, mas que tampouco se efetiva. notívago impasse. metabolismo suspenso em pleno salto. em vez da entrega, do relaxamento, a imposição de um afogar no seco do leito. lençóis revoltos em emparedamento entre os dois estados, nem desperto nem adormecido.
      apartado do mundo dos que dormem, num hiato de agonia, a rolar na cama encharcada de murmúrios de hemorragia auditiva e sem vislumbre de saída. é tudo o de não gracioso. em oposição àquele com que uma bolha se move até se fundir com o ar acima do limite d’água. inevitável invasão em sentido contrário. anulação. imergindo inexorável no vazio plenamente audível do escuro. redemoinho a tragar ao fundo. cada vez mais distante do fio divisor, da líquida tensão superficial do são.
      esgarçado, o corpo exausto e ex-sujeito assujeita-se à mente furiosa em seu vomitório, a bom triturar falas e a reorganizá-las aleatoriamente, frases infindas, impensáveis conversações. antropofagia que consome, antes de tudo, o próprio equilíbrio. palavras tantas para quê? de que profundidade provêm? escoamento irrepresável rompendo léxico e nexo. o que exatamente as descontrolam? em enxurradas, me invadem e esvaem à última gota. na ausência total de luz, olhos e saúde arenosos.
      verdadeiro afogamento pra dentro, guelras entupidas como se por respirar areia, premido por secura saariana. ao fim, alguma energia é recolhida para romper com tal círculo de aparente infinitude: tomar um eficaz dormonid em 15 mg. e escapar. ainda que sem noção das razões de tudo aquilo, sequer do tempo ali passado. ouço ainda uma voz derradeira a confirmar: — sim, toma!

mimetismo

Não conheci você, mas me garantem que nada perdi.
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O mimetismo de seus cabelos seria passageiro e você própria, mera viajante de um trem de incertas estações, de trilhos sem nexo e com descorados outonos e soluços.
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O que mais se comenta mesmo é a inconstância de seu riso quando em contato com quaisquer borboletas. Há até os que garantem ter sentido ânsia de vômito quando encararam seus lábios trêmulos.
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Os traços alados desses insetos lhe descoloririam o contorno – daí sua aversão a eles.
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Contraditoriamente, por vezes sinto pena de nosso desencontro (ou tropeço, segundo sugestão de alguns), e fico a supor você no vazio em que me ocupas. Feito buraco no lugar de boca, qual tiro sem estampido. E teço, então, a imagem de um casulo oco, como sua presença – vaga larva que nunca assimilei, sorvi ou apanhei.

1 de set. de 2009

selos


Foi numa noite úmida de dezembro que vi meu pai pela última vez. Após o jantar, ele saiu para colocar na garagem o carro que estava na rua. Abriu o portão, como de costume, entrou no automóvel e foi fazer o contorno. Só que não voltou. O portão e nós lá ficamos: escancarados..

Depois de dois ou três meses, passamos a receber cartões postados dos mais recônditos lugares do mundo. Uma longa ponte sob neve na Dinamarca, um templo em ouro numa selva indiana, um mercado de escravas brancas na Arábia, e por aí afora. Enquanto por aqui as coisas continuam quase que na mesma: a rua barulhenta, a casa apertada e as eternas crises de asma de minha mãe.
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A cada novo cartão recebido, aquela ânsia dela para ver se há algo escrito. Mas, invariavelmente, além dos belos selos, apenas nosso endereço e uma íntima assinatura: Papi. Aí a asma ataca – mais braba do que nunca.
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Papi deve estar se divertindo às pampas...

1 de ago. de 2009

meu amigo, o caçador

I. Um pequeno vestígio. Tanto faz o grau. Passado, flashs, lapsos, rastros. O escrever julga tecer e, compondo, apontar o ajuste de trilha. Pista: tocaia de pegadas num presente.

II. A busca daquilo que não se sabe ao certo querer. Madrugada rio acima, e agora a marcha. A trilha vaga, vegetação rala e orvalhada em manhã mal surgida. As botas já rotas aos poucos encharcando, o frio entrando também através dos pés. Da pequena mochila às costas, a garrafa com cachaça: esquenta o estômago, mas não contém o arrepio nos braços. A pouca luz vence a neblina e, na floresta que vai se adensando, compõe figuras fantásticas – seres dissimulados e outros nem tanto. A busca constitui, antes de tudo, o simples andar. A caça, o pretexto. Trilhar o sulco pelo chão; na terra batida, as marcas de outras tantas passagens. Procurar no rumo já testado: envolvimento com um verde esbranquiçado, quase tenebroso em função dos calafrios. Treme-se pelo desconhecido, pelas imagens que roçam nas curvas, pelo desvario dos pensamentos – trilhos.

III. Meu pai adorava caçar. Por prazer de matar? Ninguém nunca lhe perguntou, particularmente eu nunca pensei a respeito. Certo é que, após a menor permanência nas matas e rios da região, picado de insetos, mais magro e queimado pelo mormaço, meu pai era das pessoas mais doces e tranquilas que já se viu. Os filhos pelo colo brincavam envolvidos na fumaceira de seus charutos e protegidos pela paz que só dele podia irradiar. Ausência pura de riscos: garantia de jamais vir a nos faltar. Contudo, quanto vazio sua lembrança causa hoje! Pela morte dos bichos trazidos, pelo contato com as matas ou pela solidão das trilhas por que se metia, o fato é que, à volta de cada caçada ou pescaria, passava algumas semanas como que encantado. Poderíamos nós ter qualquer preocupação com aquilo que destruíra ou matara? Claro que não.

a mágoa dos igarapés

brincavas com as pedras. absorta, nem vias o brinco, águas, estrelas cadentes passarem.
a mágoa dos igarapés.
não passa tão fácil. águas invadindo, a gente sendo engolido pro fundo.
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vazaram imagens, possibilidades, dores – passado.
os olhos exorbitados sabem da queda. da atração da areia no fundo. feito túnel: a claridade se perdendo, subindo, distante. e o igarapé arregalando tudo garganta a dentro. mas alguém pula, mergulha, resgata.

.
e volta-se. à tona: retratos em branco-e-preto. imagens enquanto brincavas com as pedras...
a mágoa dos igarapés. a sede. o troco. ida.
de leve, como o gosto que escorre pelo rosto. sem culpa. quente e choroso.

31 de jul. de 2009

lembranças


o jantar tinha sido seco, ritmado exclusivamente pelo hábito da fome. desses em que mal se acaba e já se levanta.

contemplando da varanda o oceano, por detrás da fumaça do cachimbo, recordo os dias em que velejar era tudo. fazer-se ao mar e ler luas e marés e estrelas. verniz aplicado com areia ao casco do barco, vento noroeste, por milhas e milhas a percussão das ondas. o respingar salgado.

e em nossos rostos a tensão de quem juntos, na cadência dos fluxos e refluxos marítimos, podíamos singrar o imprevisível... há quanto tempo!

resgate e rasgo e raio: ondas suplantam a memória alquebrada e espumam num só gesto, num só eco – onde o terei perdido? por que bombordo ou estibordo terá ele restado? não há mais velas, bóias, bolinas nem horizontes infindos. sequer uma mísera carta náutica a indicar quaisquer coordenadas suas.

um pequeno arroto daquilo mal digerido me traz de volta. de dentro da escuridão, ao fundo, relâmpagos delineiam por um momento o limite entre céu e a imensidão de água.

sobre a mesa, guardanapos recém-usados, restos de frutos do mar e manchas de vinho ordinário em contraste com a toalha de linho.

como incessantemente o mar nos arrecifes, a ausência dele em mim não dá sossego. esta madrugada certamente choverá.
para o Vandão

a lá do tempo

ao lado, tempo
a lá do tempo
tempo alado
.
: empalidecer a morte





enquanto a penetrava, por sobre a vista interminável do alto de seu apartamento em uma fria madrugada, sentia-me comendo a própria são paulo. ela, esguia, leve, enroscada ofegantemente à minha cintura; eu, em pé, enfim satisfazendo um querer antigo, agarrando-a como a vida àquela cidade. mulher por muito desejada e, hoje, quase absolutamente esquecida.

daí ter sido importante atravessar tantas alcovas: subverter o provincianismo do lugarejo natal. ser infiel a tudo e ao mesmo tempo poder fazer de tudo colagens. daí as descomposturas, as filhas locais tão cedo desvirginadas, seus pais exasperados – e a falta de resquício da menor saudade.
depois o escarro final nos madeirames do porto. sem desgosto de qualquer feitio, subir o rio e um dia aqui chegar. algumas daquelas filhinhas de papai hoje são semifelizes, outras, ainda que poucas, até se mudaram também de lá.


diz-se muito de épocas. passadas sempre estão. os feitos, os acertos, a própria rememoração.
não guardo sequer uma carta das que deves ter me escrito. recordo hoje, com clareza, apenas uma folha toda colorida, estrofes compridas despejadas sobre ela. mas nem um único verso lembrado. tampouco ficou qualquer foto tua presenteada. penso ter te feito, certa vez, um minúsculo conto. claro, terminou rasgado – como todos os outros ousados a um amor já morto.