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16 de mar. de 2013

melodia sentimental


Acorda, vem ver a lua
que dorme na noite escura
que fulge tão bela e branca
derramando doçura...

Acorda, vem olhar a lua
que brilha na noite escura
querida, és linda e meiga
sentir seu amor é sonhar

 H.Villa Lobos/Djavan

17 de dez. de 2011

vertigem em teu abraço

ao vê-la, pela primeira e única vez, vontade: abraçar. vertiginosamente, ainda se ver envolvido para sempre pela captura de um olhar como que alagado. traços cobreados em ranhuras a sombrear dois instáveis pontos em brilho. insistentes, sob forma de olhos, ali vagando.
....e nela deixar-se ficar. braços entre braços, corpos ungidos, transferência nunca mais apartada. assim transportar o então gravado, feito buril no metal, inscrição antiga encavada na ausência de opção, traços de afogamento. secura de solidão em direção ao fundo.
....tempo atrás: cidadezinha sem eletricidade. o circo chegava com sua magia. mastros, lonas, arquibancadas e bandeirolas plantavam-se num descampado do lugar. verdadeiro fulgor em lâmpadas! de seu hipnótico encanto, vaga intuição – a de poder haver escape.
....cores, picadeiro, cheiro de algodão doce e de serragem, trapézios, anões, feras domesticadas, mulher barbada. lá fora, o imantado movimento da roda-gigante. barulho de gerador pondo mais alarido à excitação dos visitantes. clarão na desilusão, recorte na falta de horizonte, na ausência de atalhos.
....tudo tão maravilhoso quanto inacessível. miragem em passagem. vinham, para logo ir. mas, se iam, havia um para onde. com eles, saída, escapamento, oportunidade. salto mortal a abalar o globo da morte da provinciana cidade. cuspir a fogo facas lançadas às cegas. ir.
....ir-se. como a entrega ao abraço naquela mulher e seus olhos de aquosa instabilidade. condição desejante reescrita. nos braços dela deixar-se reter igual a tinta aos sulcos de uma placa de cobre. gravura de um saimento: angústia como vertigem de liberdade.

Idílio na Noite, M. Gruber, água-forte, 1963

16 de out. de 2011

nado no invisível


foi há muito tempo, quando ainda na casa dos meus pais. da janela do quarto de dormir, via-se o tronco inclinado de uma árvore, que de fato nunca houve ali. levemente molhado, o musgo que o recobria era de um verde escuro vivo. numa das paredes internas, desde o teto de ponta a ponta escorria água, em uma fina mas constante camada. percebi então, nadando por ali, pequenos peixes, desses de aquário, coloridos e graciosos e com diferentes formatos. flutuavam em seus movimentos como se submersos. gestos de absoluta serenidade ondulante, a indicar a naturalidade – desde sempre – de tudo aquilo. as cores fortes e a beleza do deslocar-se deles me magnetizavam. aproximo amistosamente o indicador direito de um peixinho, um vermelho de longas e delgadas barbatanas. queria senti-lo (crê-lo?). pouco antes do toque, o salto agressivo, o bote inesperado ao meu dedo. deu para retirá-lo a tempo, recuar assustado diante de desproporcional ameaça. e, aí, já num misto de atração e medo, contemplar o ser de nado em suspensão e de profundo descaso ao ocorrido. apenas cortava o invisível em indisfarçável superioridade por sua magia. etéreo, entre a parede a verter água e o meu olhar. lá fora, o tronco em umidade de intensos tons.

3 de set. de 2011

janela perfurada

o barrento São Francisco, porto de Januária. barco atracado.
     desde o cais, o pulo da linda jovem, inesperada companheira de viagem. ela já havia se lançado antes – para o pasmo de tantos – do alto da enorme ponte Presidente Dutra, entre Juazeiro e Petrolina. agora o fazia não tanto pelo salto em si, de reles 3 metros, mas para refrescar-se da quentura nordestina em janeiro.
     se da vez anterior de minha parte não houve a mais remota cogitação de bravata em emitá-la, ali me vi – sabe-se lá por qual razão – no impulso de também me precipitar atrás dela. e, ainda por cima, me jogar logo de cabeça! considerando-se minha paúra de altura, a elevada temperatura não era incentivo suficiente para me atirar lá de cima. mesmo porque em algum outro ponto do porto haveria acesso direto ao nível da água. pergunto-me hoje se o gesto repentino de segui-la traria a intenção de romper com antigas aversões a lugares elevados, como trampolim e galhos de árvores altas.
    no átimo entre os pés perderem contato com o cais e me perceber de braços estendidos sobre a cabeça – feito agulha a mirar o rio a ser perfurado –, uma visão: na linha d’água, uma janela a ser estraçalhada por minha passagem por ela. a cena congelada – o horror paralisante em pleno salto a fixar em suspensão a pergunta “o que estou fazendo aqui?!”
     e que diabos significaria aquela janela no meu caminho? nem a água fria em contraste com o enorme calor do corpo, muito menos a necessidade de lutar contra a correnteza para voltar à margem, tampouco o fato de ali, afinal, meu movimento de saltar ter tido êxito – nada disso arrefeceu, mesmo ao longo dos muitos anos posteriores, a medonha sensação dos intermináveis décimos de segundo daquela projeção no ar ante um impacto com a tal janela!

25 de jun. de 2011

inocupável não se ter

após o fim de semana prolongado por feriado, de paixão intensa e desejos inebriantes satisfeitos, ele pega o avião de volta à sua cidade, enquanto ela, o carro pela autopista, em direção à sua.
     quando já instalado no escritório da empresa, ele abre da pasta de emails uma mensagem de pretenso remetente desconhecido: “a todo instante um frio me percorre a espinha. mordo instintivamente os lábios. e sinto você novamente dentro de mim”.

condensação. síntese em arrebatamento, não aberta a todos os sentidos. quem sabe, a quase nenhum. mas uma linha, corte divisor. camadas possibilitadoras. até porque: escrever tudo não se escreve mesmo. e, ainda assim, se escreve.
     o encontro, a permissão, o suar. gozo de momentos. no contorno de um hiato, um inocupável não dizer. letras sem corpo da escrita, corpos como palavra dada. não ser preenchido. mas circundado, ciente da potencial ausência. na sua não escritura. apenas no tido. ter disso dimensão. o deleito do novo, num corpo novo, de gente nova.
     por ali poder. ânfora em que se desagua. arco em flecha, ato, desejo daquilo que não se tem. e assim se tem. amém.

4 de fev. de 2011

diálogos recortados [in continuum]

“Já em novembro havia lhe dito: todas as verdades podem ser satisfeitas neste planeta. Nele, tudo é permitido. Você pode até achar estranha a afirmação, mas pense bem: nada seria como é – caótico – se aqui na Terra não houvesse essa permissividade toda.”

Mas tudo é muito. Fica por demais aberto...

“Sim. Mas voltemos então a setembro: ninguém escapa ao próprio destino, porque ainda que haja total perdão e redenção não se poderia superar a responsabilidade de libertar o que a própria alma amarrou. Você quer liberdade? Então liberte todo mundo!”

Não é um tanto quanto vago, tudo isso?

“Pois comece a se pensar como uma pessoa diferente daquela que um dia foi. Para isso será necessário que você torne irrelevante a memória de tudo que ocorreu, prestando mais atenção ao que você pode fazer a partir de agora.”

Fechei o jornal, me pondo a imaginar como agir de modo nunca antes aventado como possível...

Bem, se o “poder de realizar através do esforço” é a única e verdadeira facilidade com que minha alma pode contar – como depois viria a me dizer –, resulta que não dependerei das circustâncias para atingir o objetivo desejado. Eu próprio serei o objetivo.

7 de set. de 2010

seção por fim

num canto do palco, cortante, detalhe de cenário no aguardo da próxima encenação. sessão pontuada por lascas, sentimentos em contrastes e aguda perspectiva sanguínea. por fim, seção. que se cuide o contrarregra ...

8 de mai. de 2010

doido


o menino acorda agoniado. pesadelo dos brabos. pelas ruas de Manaus, junto com seus irmãos ainda mais curumins que ele, depara-se com Carmem Doida. doida varrida, sempre munida de um saco de juta às costas, pronta para ameaçar meter nele crianças que a aperreassem, e carregá-las embora... no saco, até onde se sabe, uma lata com restos de comida para bichos que criava.
     pavor em forma de gente. ou de pesadelo. espectro magro, com cabelos lisos e grisalhos, de franja reta rente à testa, composto ainda por gibão surrado como vestimenta. mais que louca, enlouquecedora. concretização do terror. e, tudo que restava ao menino era arrodear aquele ser, que se interpunha no caminho em direção à sua casa, e passar com seus irmãos despercebidos da figura. mas eis que um deles faz a última das coisas pensáveis. grita Carmem Doida! pronto, o pesadelo fez-se realidade. medonho, sem saída, saco a buscar menino...
     menino acordado, vê-se sozinho. ó angústia infinda. seus irmãos já tomavam o café da manhã. suado, mas sem se dar conta sequer do arder das brotoejas, em ato contínuo desce ao térreo da casa, com os pés a cruzar o frio do granito pontilhado em preto e branco. mãe na cozinha, irmãos sentados à mesa. vai direto ao maldito, dono do grito: e desce sopapos no atônito coitado. a mãe consegue separar o atacante – ainda descontrolado, em respiração e no transpirar, dado o recente escape da doida da Carmem – do completamente desentendido irmão. ela exige justificativa do filho mais velho, com o que entende o ocorrido e tenta explicar-lhe o que vinha ser um sonho...
     não se sabe o quanto, ali, o menino acabou de fato compreendendo. o símbolo fora, naquele instante, de todo real. doído. muita água rolaria pelos igarapés da fantasia, até que ele chegasse a relacionar sonho e sintoma pelo seu aspecto metafórico, ou angústia a preço a pagar para se assumir a demanda do desejo... Carmem Doida sempre foi muito doido!

28 de dez. de 2009

22 de ago. de 2009

sem grilo


orquestrado. casamento. supus. teu
grito, esquisito, de suicídio. foi
difícil. imaginar véu, romance, mil
páginas. nem imaginas. aos berros,
o padre, a sinfônica: tudo gravado.
eu engravatado, querendo uma
forca prus meus cornos. tanto des-
gosto. que tive vontade de escrever
um livro. um puta insucesso de
público. te explico. sem grinalda. eu
sem grilo. desligo.

8 de ago. de 2009

traduzir-se

flores / de plástico / estico.
defere.
desisto. / viro-me: / ramalhete.