19 de dez. de 2015
17 de dez. de 2015
verão
talvez vocês consigam
atravessar esse verão
talvez possam matar sua sede
com jarras de cleriquot
enxergar vultos nas montanhas
saber o suficiente para falar sobre
o que falar à beira de uma piscina
onde uma abelha se afoga
no que resta de azul
esta é a cor dos meus sonhos
talvez vocês consigam
atravessar esse verão
mas poderão me perdoar
pelo meu fracasso?
Julia de Souza
24 de nov. de 2015
12 de dez. de 2013
vênus de willendorf
SãSão apenas
11,1 cm de altura. Mas o encanto dessa estatueta não tem limites. Encontrada em
1908, próximo ao Rio Danúbio, na região austríaca de Willendorf, a Vênus de Willendorf foi esculpida há uns 24 mil anos, numa rocha
avermelhada, de calcário oolítico.
A Mulher de Willendorf, como também é conhecida, não traz rosto. O couro cabeludo está recoberto por algo semelhante a tranças ou, quem sabe, pode ser que sua cabeça esteja pontuada por diversos olhos. Não foi concebida com pés. Talvez tenha servido de talismã e, assim, criada para ser transportada.
Para alguns, sua obesidade, como ideal ancestral de abundantes mamas e ventre, traduz um status social superior em uma comunidade de caçadores e coletores. Representaria a estabilidade, o êxito e o conforto, para um grupo que viveria de forma comedida, alicerçado na Terra, despojado de confrontos e com surpreendente engenhosidade.
A peça autêntica está preservada no maravilhoso Museu de História Natural (Naturhistorisches Museum) de Viena. Tenho uma cópia dela na sala de minha casa. Pouco mais de 11 cm de puro charme.
A Mulher de Willendorf, como também é conhecida, não traz rosto. O couro cabeludo está recoberto por algo semelhante a tranças ou, quem sabe, pode ser que sua cabeça esteja pontuada por diversos olhos. Não foi concebida com pés. Talvez tenha servido de talismã e, assim, criada para ser transportada.
Para alguns, sua obesidade, como ideal ancestral de abundantes mamas e ventre, traduz um status social superior em uma comunidade de caçadores e coletores. Representaria a estabilidade, o êxito e o conforto, para um grupo que viveria de forma comedida, alicerçado na Terra, despojado de confrontos e com surpreendente engenhosidade.
A peça autêntica está preservada no maravilhoso Museu de História Natural (Naturhistorisches Museum) de Viena. Tenho uma cópia dela na sala de minha casa. Pouco mais de 11 cm de puro charme.
7 de nov. de 2013
21 de set. de 2013
16 de mar. de 2013
melodia sentimental
Acorda, vem ver a lua
que dorme na noite escura
que fulge tão bela e branca
derramando doçura...
Acorda, vem olhar a lua
que brilha na noite escura
querida, és linda e meiga
sentir seu amor é sonhar
Acorda, vem olhar a lua
que brilha na noite escura
querida, és linda e meiga
sentir seu amor é sonhar
H.Villa Lobos/Djavan
27 de jan. de 2013
clone age
20 de jan. de 2013
tudo aceso
Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado (...)
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos
Âmbar, A. Calcanhoto
29 de nov. de 2012
índigo sentir
no ar fátuo, menina lançou
forma ascendente de anil contido
sombra luz assombro vítreo em quarto
a balouçar
forma ascendente de anil contido
sombra luz assombro vítreo em quarto
a balouçar
20 de nov. de 2012
dentro dele
na semente está o fruto,
Deus no mundo;
o que for inteligente
buscá-lo-á dentro dele.
Daniel von Czepko,
aliás Angelus Silesius (1605-1660)
22 de jul. de 2012
21 de jul. de 2012
frágil sensatez
o ar gelatinou-se. seu leque de cores poderia ser cortado a estilete. veio de um fundo imensurável a apresentação em voz grave e segura. moradora de rua, solicitava xerox a serem pagos com o que pudesse... duas cópias de cada página. voltaria para acertar a diferença assim que desse.
mal-estar instaurado, restou, do atendente, uma não resposta para que aguardasse.
cônscio de não alimentar o clímax, meu olhar era puro esquivo. suficiente para, minimamente, sinalizar consideração pela mulher? não mirar diretamente a dona da voz – que advinhava bem ao lado – traria, por si, algum grau de respeito por sua autêntica identidade? a oceânica diferença que sua afirmação estabelecia à frágil sensatez cotidiana poderia ser transposta? eu inquerindo, como a um salva-vidas no banco dos réus.
em estado latente, reverberação de reprografia em contenções íntimas – sustentadas a duras custas. desde olhos outros: relatos efetivos, tidos, críveis, havidos ou não. afetos no âmago implantados, represados por manifestação distanciada. igualmente cônscia. lapso de tempo e de planos, sem tons, subtons nem meios. ali presentificado!
e transborda. impossível manter ao largo a figura alinhada ao mesmo balcão e que, sem o menor artifício, naquele instante se impunha em silêncio. insistência mansa contra o pretender generalizado em evitá-la
ela se fez o centro na tela daquela manhã xerografada. tudo se desvaneceu. remetidos à permanência de um outro distanciamento, meu fitar vazado de já não ver a outra mulher verteram-se em gesto. sugados por olhos azuis que não conferiram maior opção: ao menos serem encarados.
hiato deserto, deserto da outra mulher... e dos rastros por ela dispostos em mil direções. ok, todos os passos perdidos são meus! e me dirigi àquele maltrado olhar, plantado no digno desejo de mera reprodução das anotações que lhe eram, mais que suas, sua inscrição.
juntei meus anzois. e os papeis delas aos meus. frente e verso. duas cópias de cada. claro, tal fulgurante visão não se produz duas vezes no mesmo lugar... mas como me danei eu, enquanto outra Helena reverberava dos olhos azuis daquela maltrapilha Renata Maria, ou alguma outra Maria, ou Renata...
e nenhuma brisa mais soprou.
mal-estar instaurado, restou, do atendente, uma não resposta para que aguardasse.
cônscio de não alimentar o clímax, meu olhar era puro esquivo. suficiente para, minimamente, sinalizar consideração pela mulher? não mirar diretamente a dona da voz – que advinhava bem ao lado – traria, por si, algum grau de respeito por sua autêntica identidade? a oceânica diferença que sua afirmação estabelecia à frágil sensatez cotidiana poderia ser transposta? eu inquerindo, como a um salva-vidas no banco dos réus.
em estado latente, reverberação de reprografia em contenções íntimas – sustentadas a duras custas. desde olhos outros: relatos efetivos, tidos, críveis, havidos ou não. afetos no âmago implantados, represados por manifestação distanciada. igualmente cônscia. lapso de tempo e de planos, sem tons, subtons nem meios. ali presentificado!
e transborda. impossível manter ao largo a figura alinhada ao mesmo balcão e que, sem o menor artifício, naquele instante se impunha em silêncio. insistência mansa contra o pretender generalizado em evitá-la
ela se fez o centro na tela daquela manhã xerografada. tudo se desvaneceu. remetidos à permanência de um outro distanciamento, meu fitar vazado de já não ver a outra mulher verteram-se em gesto. sugados por olhos azuis que não conferiram maior opção: ao menos serem encarados.
hiato deserto, deserto da outra mulher... e dos rastros por ela dispostos em mil direções. ok, todos os passos perdidos são meus! e me dirigi àquele maltrado olhar, plantado no digno desejo de mera reprodução das anotações que lhe eram, mais que suas, sua inscrição.
juntei meus anzois. e os papeis delas aos meus. frente e verso. duas cópias de cada. claro, tal fulgurante visão não se produz duas vezes no mesmo lugar... mas como me danei eu, enquanto outra Helena reverberava dos olhos azuis daquela maltrapilha Renata Maria, ou alguma outra Maria, ou Renata...
e nenhuma brisa mais soprou.
9 de jul. de 2012
6 de jan. de 2012
trago uma metáfora nos olhos
o olho direito vem falhando há tempos. da miopia corrigida bons anos atrás, nele restou uma falha médica num dos cortes radiais ali empregados. daí a permanente dificuldade para ajustar lentes do astigmatismo surgido, outra herança da tal cirurgia, então tida como de ponta. mais tarde, a experiência de um deslocamento vítreo, remetendo a viagens lisérgicas: do nada, algo interferindo no campo de visão. sujeira nos óculos? limpos, o problema se manteve; quem sabe algo preso à sobrancelha... que nada. incontroláveis, pontos e manchas e fios e ramificações foram se multiplicando. formas e composições em indescritíveis dimensões. alucinação solta num só lado da visão. até chegarem a verdadeiras explosões, relâmpagos de uma tempestade em céu que anoitecia sem uma nuvem sequer... vários especialistas depois, com exames sob quantidade ímpar de luz projetada no fundo ocular, aos poucos as manchas foram diminuindo. restam certo embasamento e pontinhos que teimam em ter autonomia de movimento e de aparição.era o olho ‘ruim’.
surgiu, enfim, uma estranha inexatidão geral na visão, difícil até de detalhar. gradativamente fez-se complicado precisar as coisas. foi se perdendo o rigor na profundidade entre elas, conjunto de objetos semelhantes, ambientes com determinada iluminação, letras... ah, a leitura! sobrepunham-se letras, linhas embaralhavam-se e a imagem oriunda de cada olho agora tinha tamanho diferente em relação à do outro. uma mesma imagem, mas de dimensões e qualidade distintas. naturalmente, na fusão final feita pelo cérebro, as duas não casavam, gerando incômodo crescente. as mais variadas posições dos óculos no rosto traziam falsas soluções – assim como novos diagnósticos, de numerosos oftalmologistas; são testadas mudanças de eixo nas lentes, diversos e variados exames, testes com lentes de contato especiais... nada. uma suspeita de catara também se viu improcedente. e o desconforto visual só aumentando.
que mais problemas estariam surgindo na visão direita, de diagnóstico assim tão difícil? eis a minha constante questão.
até que, quase dois anos após os primeiros sintomas, um mais novo exame pedido em meio a outros (‘por desencargo’) constatou por fim a disfunção da visão: uma membrana epiretiniana, ou membrana macular em celofane, no fundo do olho. sobre a fóvea, tecido nobre para a visão. sem origem identificável, ela distorce os vasos retinianos circundantes e, desse modo, a própria visão daí formada. e tudo isso no olho esquerdo...
e lá se foi o ‘olho bom’...
cirurgia possível, mas “sem garantias de sucesso”. além de desagradável pós-operatório, ainda traz efeitos colaterais praticamente garantidos– deslocamento da retina, hemorragia, infecções, entre outras sequelas.
ou seja, o que era ruim – o olho direito com suas deficiências – mostrou-se ao fim a solução para contrabalançar o prejuízo do esquerdo, insistentemente agora a comprometer a junção final das imagens projetadas por ambos os lados. elas não harmonizam em tamanho nem em função dos desalinhamentos horizontais e verticais provocados pela mácula.
se história tivesse mesmo moral, seria algo como: não menospreze aquilo que possa parecer ruim, ele pode, ao fim, ser o melhor da tal história. aquilo que turva também pode trazer sentidos, percepções; no desalento e dificuldade, tornar-se escrita. abrir visão.
uma palavra por outra, o bom pelo ruim. o ruim pelo bom, a mácula pela percepção. paradoxo a lembrar que tudo que é pode até de fato ser... o sentido gerado do não-sentido – viscosidade solidificada numa forma genuína de enxergar. e sou lembrado disso a todo instante. basta abrir os olhos. ou apenas um deles.
24 de dez. de 2011
17 de dez. de 2011
vertigem em teu abraço
ao vê-la, pela primeira e única vez, vontade: abraçar. vertiginosamente, ainda se ver envolvido para sempre pela captura de um olhar como que alagado. traços cobreados em ranhuras a sombrear dois instáveis pontos em brilho. insistentes, sob forma de olhos, ali vagando.
....e nela deixar-se ficar. braços entre braços, corpos ungidos, transferência nunca mais apartada. assim transportar o então gravado, feito buril no metal, inscrição antiga encavada na ausência de opção, traços de afogamento. secura de solidão em direção ao fundo.
....tempo atrás: cidadezinha sem eletricidade. o circo chegava com sua magia. mastros, lonas, arquibancadas e bandeirolas plantavam-se num descampado do lugar. verdadeiro fulgor em lâmpadas! de seu hipnótico encanto, vaga intuição – a de poder haver escape.
....cores, picadeiro, cheiro de algodão doce e de serragem, trapézios, anões, feras domesticadas, mulher barbada. lá fora, o imantado movimento da roda-gigante. barulho de gerador pondo mais alarido à excitação dos visitantes. clarão na desilusão, recorte na falta de horizonte, na ausência de atalhos.
....tudo tão maravilhoso quanto inacessível. miragem em passagem. vinham, para logo ir. mas, se iam, havia um para onde. com eles, saída, escapamento, oportunidade. salto mortal a abalar o globo da morte da provinciana cidade. cuspir a fogo facas lançadas às cegas. ir.
....ir-se. como a entrega ao abraço naquela mulher e seus olhos de aquosa instabilidade. condição desejante reescrita. nos braços dela deixar-se reter igual a tinta aos sulcos de uma placa de cobre. gravura de um saimento: angústia como vertigem de liberdade.
....e nela deixar-se ficar. braços entre braços, corpos ungidos, transferência nunca mais apartada. assim transportar o então gravado, feito buril no metal, inscrição antiga encavada na ausência de opção, traços de afogamento. secura de solidão em direção ao fundo.
....tempo atrás: cidadezinha sem eletricidade. o circo chegava com sua magia. mastros, lonas, arquibancadas e bandeirolas plantavam-se num descampado do lugar. verdadeiro fulgor em lâmpadas! de seu hipnótico encanto, vaga intuição – a de poder haver escape.
....cores, picadeiro, cheiro de algodão doce e de serragem, trapézios, anões, feras domesticadas, mulher barbada. lá fora, o imantado movimento da roda-gigante. barulho de gerador pondo mais alarido à excitação dos visitantes. clarão na desilusão, recorte na falta de horizonte, na ausência de atalhos.
....tudo tão maravilhoso quanto inacessível. miragem em passagem. vinham, para logo ir. mas, se iam, havia um para onde. com eles, saída, escapamento, oportunidade. salto mortal a abalar o globo da morte da provinciana cidade. cuspir a fogo facas lançadas às cegas. ir.
....ir-se. como a entrega ao abraço naquela mulher e seus olhos de aquosa instabilidade. condição desejante reescrita. nos braços dela deixar-se reter igual a tinta aos sulcos de uma placa de cobre. gravura de um saimento: angústia como vertigem de liberdade.
Idílio na Noite, M. Gruber, água-forte, 1963
20 de nov. de 2011
14 de nov. de 2011
16 de out. de 2011
nado no invisível
foi há muito tempo, quando ainda na casa dos meus pais. da janela do quarto de dormir, via-se o tronco inclinado de uma árvore, que de fato nunca houve ali. levemente molhado, o musgo que o recobria era de um verde escuro vivo. numa das paredes internas, desde o teto de ponta a ponta escorria água, em uma fina mas constante camada. percebi então, nadando por ali, pequenos peixes, desses de aquário, coloridos e graciosos e com diferentes formatos. flutuavam em seus movimentos como se submersos. gestos de absoluta serenidade ondulante, a indicar a naturalidade – desde sempre – de tudo aquilo. as cores fortes e a beleza do deslocar-se deles me magnetizavam. aproximo amistosamente o indicador direito de um peixinho, um vermelho de longas e delgadas barbatanas. queria senti-lo (crê-lo?). pouco antes do toque, o salto agressivo, o bote inesperado ao meu dedo. deu para retirá-lo a tempo, recuar assustado diante de desproporcional ameaça. e, aí, já num misto de atração e medo, contemplar o ser de nado em suspensão e de profundo descaso ao ocorrido. apenas cortava o invisível em indisfarçável superioridade por sua magia. etéreo, entre a parede a verter água e o meu olhar. lá fora, o tronco em umidade de intensos tons.
15 de out. de 2011
olhar de jacaré
4 de set. de 2011
3 de set. de 2011
janela perfurada
o barrento São Francisco, porto de Januária. barco atracado. desde o cais, o pulo da linda jovem, inesperada companheira de viagem. ela já havia se lançado antes – para o pasmo de tantos – do alto da enorme ponte Presidente Dutra, entre Juazeiro e Petrolina. agora o fazia não tanto pelo salto em si, de reles 3 metros, mas para refrescar-se da quentura nordestina em janeiro.
se da vez anterior de minha parte não houve a mais remota cogitação de bravata em emitá-la, ali me vi – sabe-se lá por qual razão – no impulso de também me precipitar atrás dela. e, ainda por cima, me jogar logo de cabeça! considerando-se minha paúra de altura, a elevada temperatura não era incentivo suficiente para me atirar lá de cima. mesmo porque em algum outro ponto do porto haveria acesso direto ao nível da água. pergunto-me hoje se o gesto repentino de segui-la traria a intenção de romper com antigas aversões a lugares elevados, como trampolim e galhos de árvores altas.
no átimo entre os pés perderem contato com o cais e me perceber de braços estendidos sobre a cabeça – feito agulha a mirar o rio a ser perfurado –, uma visão: na linha d’água, uma janela a ser estraçalhada por minha passagem por ela. a cena congelada – o horror paralisante em pleno salto a fixar em suspensão a pergunta “o que estou fazendo aqui?!”
e que diabos significaria aquela janela no meu caminho? nem a água fria em contraste com o enorme calor do corpo, muito menos a necessidade de lutar contra a correnteza para voltar à margem, tampouco o fato de ali, afinal, meu movimento de saltar ter tido êxito – nada disso arrefeceu, mesmo ao longo dos muitos anos posteriores, a medonha sensação dos intermináveis décimos de segundo daquela projeção no ar ante um impacto com a tal janela!
27 de ago. de 2011
esta cidade não é a minha. aquela em que fui gerado, parido e na qual vivi minha infância impregnou-me com suas águas negras e límpidas. e ainda por calor insuportável e umidade em forma de respiro. seu provincianismo pra sempre a sufocar, pior que brotoejas – jamais tê-lo na pele. nenhum talco jhonson misturado a alfazema dá conta. ventilador, por mais rente, não o alivia. e negar tal cidade também fez parte da presença dela em mim. na recusa, sua afirmação. ou, ao negá-la, confirmar – sua ausência de mim. perda a configurar.
contudo, é nesta cidade atual que me reencontro. numa noite especialmente fria, plena de garoa, o deparar com o acelerado ritmo cultural do lugar. estar cara a cara com Herzog – o ‘diretor de anões’ em carne e osso – e seus documentários apenas emblematiza esse fluxo indescritível de paulistanidade. e tudo isso me presentifica e flui e me percorre, ainda mais efetivamente que o vento gelado a esgueirar-se sob a roupa pesada.
pelos enquadramentos da urbe, redescobrimento de gentes – apesar de toda sua imensidão a se perder. três ou mais décadas passadas. como que pausada. e retomada sem paralelos. só aqui possível, posto esquinas de minhas circunstâncias. mesmo após anos e anos fora, é nela que uma gênese fílmica se projeta. psique a borbulhar, narrativas impensadas de outro cruzar. frio e garoa banhando a alma, profundamente feito o bordejo de um igarapé amazônico.
nas margens, algo não concluído. a realizar-se. um aspecto de permissão, de insanidade, de encontro radical consigo. lampejo integral. um artístico por ser escrito. inscrito. borda. e um contínuo deslocar.
15 de ago. de 2011
25 de jun. de 2011
inocupável não se ter
após o fim de semana prolongado por feriado, de paixão intensa e desejos inebriantes satisfeitos, ele pega o avião de volta à sua cidade, enquanto ela, o carro pela autopista, em direção à sua.quando já instalado no escritório da empresa, ele abre da pasta de emails uma mensagem de pretenso remetente desconhecido: “a todo instante um frio me percorre a espinha. mordo instintivamente os lábios. e sinto você novamente dentro de mim”.
condensação. síntese em arrebatamento, não aberta a todos os sentidos. quem sabe, a quase nenhum. mas uma linha, corte divisor. camadas possibilitadoras. até porque: escrever tudo não se escreve mesmo. e, ainda assim, se escreve.
o encontro, a permissão, o suar. gozo de momentos. no contorno de um hiato, um inocupável não dizer. letras sem corpo da escrita, corpos como palavra dada. não ser preenchido. mas circundado, ciente da potencial ausência. na sua não escritura. apenas no tido. ter disso dimensão. o deleito do novo, num corpo novo, de gente nova.
por ali poder. ânfora em que se desagua. arco em flecha, ato, desejo daquilo que não se tem. e assim se tem. amém.
25 de abr. de 2011
29 de mar. de 2011
libélula fala?
Clarisse e Sofia, é como se chamam. Nelas, praticamente só os nomes são diferentes. O encaracolado dos cabelos, o sorriso que chega às bochechas e a enorme curiosidade para com tudo que vai à volta, isso tudo é idêntico nas duas. Difícil mesmo, quase sempre, fica em saber qual é a Clarisse, qual a Sofia... ......Outro dia estavam a fuçar pelo jardim, na casa de um dos tios delas. Em meio a borboletas e outros seres alados que pousavam de flor em flor e que a todo instante cruzavam com elas, eis que surgiu um bichinho particularmente diferente: era uma libélula, cuja existência até ali desconheciam. Ela parou à frente das meninas e ficou encarando as duas. É, ela parou mesmo no ar! Ficou lá, feito helicóptero: nem subia nem descia, não ia pra frente nem pra trás. Só com as asas batendo e batendo, sem sair do lugar.
......E olhou pra uma, depois pra outra, e voltou pra primeira... As gêmeas logo perceberam que estavam sendo encaradas, vejam só!, por aquele insetinho de asas duplas, imóvel em pleno ar. Até que Sofia, a mais espevitada das duas, se saiu com essa:
......― Que foi?! Nunca viu não, cara de pavio?
......― Não mesmo!, respondeu o bichinho. Assim tão igualzinha uma à outra, nunca mesmo!
......Aí foram as duas que, espantadíssimas, olharam uma pra outra! Credo! E inseto fala? Desde quando? Bem, pelo visto, desde agora – parecia terem concluído as duas, pois logo estavam conversando com a libélula.
......E, olhando-a daquele jeito tão de perto, chamou-lhes a atenção o tamanho dos olhos dela. Clarisse repetiu a pergunta bem conhecida de um livrinho que sua mãe costumava ler pra elas:
......― Pra que esses olhos tão grandes?
......“Ah, eles servem pra ver bem melhor” – explicou a libélula. “Eles têm um monte de divisões, e termina sendo como se fossem muitos e muitos olhinhos, todos bem juntinhos. Assim, enxergo pra tudo que é lado ao mesmo tempo. Ops! e por falar nisso, estou vendo um lanchinho ali!”
......E lá se foi ela atrás de um apetitoso mosquito, deixando Clarisse e Sofia de bocas abertas, enquanto tentavam seguir com os olhos aquele voo muito do seu irriquieto em asas transparentes.
9 de mar. de 2011
assoado de ti
Quando como que assoado de ti, pus-me a errar. Vago, sem qualquer consistência que pusesse sentido àquela dispensa: plena e efetiva em seu completo descaso. Descarte a toda prova......Ser expelido, perambulando ao sabor de vagas insones, Odisseu sem sua Ítaca, expulso de qualquer possibilidade de norte.
.....Isso acabou por debruçar-me sobre incontáveis gestos de desesperos. Os mais profundos – e dolorosos – estavam entre os mais silenciosos.
.....Mas, açodado, fiz-me deserto. Nunca mais escrever. Não mais vir a público. Jamais.
Meses de suportabilidade. Resistência à insistência. Conflito interno, refluxo calado, a emergir, a deglutir, a forçar sua torrente. A testar a tolerância à ausência do menor tino.
.....Contudo, dá-se o escape. Permissão para um só poema. Um só registro. E só.
.....Num jorro, a síntese em tão enxutos, condensados, suados versos. Porteira aberta...
.....E a cada incontinente escrito, de fato por fim concebido, ao menos uma limitação se fazia imposta: o anterior de imediato destruído. Quase um ritual, com a porta do escritório devidamente serrada. Na penumbra, a folha desbancada era dobrada em três e, sanfonada e equilibrada sobre o cinzeiro, posta a queimar. De cima para baixo. Reduzida a cinzas, essas iam logo privada adentro... Purificado eu.
.....Se efetivamente incontido, o desejo ia ao papel, como que regurgitado, a depurar-se, em inumeráveis digressões, digestões em luta por se fazer presentificado. Se finalmente me fizesse derrotar – sobrevivido, purgado, inarredável e não mais equacionável –, impunha-se ao lugar do outro. Dobrado, queimado, evacuado. Desancado.
.....Mas sempre um único e apenas ímpar registro. Um último. Mais que o mais recente, o final. Derradeiro. Esperança de resistência. De vir o esgotamento, a finitude, o fundo. Um basta.
20 de fev. de 2011
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